FIV

Direitos do paciente em reprodução assistida

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Prof. Dr. Fernando Prado Ferreira

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CRM-SP 103.984 · RQE 391631

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Você tem direito à informação clara sobre diagnóstico, alternativas, riscos e prognóstico; ao acesso ao seu prontuário e aos seus laudos; à segunda opinião; a recusar ou interromper o tratamento a qualquer momento; e à proteção dos seus dados de saúde. Em reprodução assistida, somam-se as regras específicas sobre gametas, embriões e consentimento.

Por que isso importa aqui

Reprodução assistida reúne características que tornam os direitos do paciente especialmente relevantes: tratamento longo, caro, emocionalmente intenso, com assimetria grande de informação entre quem trata e quem é tratado.

Nesse contexto, é fácil que decisões sejam tomadas sem que o paciente entenda por completo o que está escolhendo, que informações fiquem retidas, e que a relação assimétrica desencoraje perguntas.

Conhecer os próprios direitos não é desconfiança do serviço. É o que permite participar da decisão em vez de apenas consentir com ela.

O direito à informação

A Lei 15.378/2026, o Estatuto dos Direitos do Paciente, reforça o que já decorria do Código de Ética Médica e do Código de Defesa do Consumidor: você tem direito a informação clara e compreensível sobre diagnóstico, alternativas de tratamento, riscos, prognóstico e custos.

Na prática, isso significa direito a:

Saber o seu diagnóstico, com a hipótese e o raciocínio que levou a ela.

Conhecer as alternativas, inclusive a de não tratar, e o que se espera de cada uma.

Entender o prognóstico do seu caso, com base nos seus dados — não numa taxa genérica. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.

Saber os riscos de cada procedimento proposto.

Receber explicação em linguagem que você entenda, e pedir que se repita quantas vezes for necessário.

Ter tempo para decidir, sem pressão de agenda.

O direito ao prontuário

O prontuário é do paciente. O serviço tem o dever de guardá-lo; a informação pertence a você.

Isso inclui laudos de exames, relatórios de procedimentos, descrições cirúrgicas e — o item mais valioso em reprodução assistida — o resumo dos ciclos com todos os números.

Peça esse resumo por escrito ao fim de cada ciclo, mesmo quando o resultado foi positivo. Ele é o insumo de qualquer avaliação futura, de qualquer segunda opinião, e de qualquer decisão sobre o próximo passo. O que ele deve conter está em quando a FIV não dá certo.

Serviço que dificulta esse acesso está sinalizando algo sobre como opera.

O que um consentimento bem feito contém

Vale destrinchar, porque o termo de consentimento é o documento mais assinado e o menos lido de todo o tratamento.

Ele não é uma formalidade de proteção do serviço. É o registro de uma conversa que precisa ter acontecido — e, se a conversa não aconteceu, a assinatura não a substitui.

Um termo adequado descreve:

O que será feito, em linguagem compreensível, etapa por etapa.

Os riscos previsíveis, incluindo os pouco frequentes e sérios.

As alternativas, inclusive a de não fazer.

O que se espera do resultado, sem promessa.

O que acontece com gametas e embriões: onde ficam, por quanto tempo, sob que custo, e o que ocorre em situações de separação, de perda de contato ou de falecimento.

O custo, discriminado.

Três orientações práticas. Leve o termo para casa e leia antes de assinar, sempre que possível. Pergunte tudo o que não entender, e não assine com dúvida pendente. E guarde uma via — ela é sua, e vai importar se algo for discutido depois.

Assinar um documento que você não leu é abrir mão do direito que ele existe para proteger.

O direito à segunda opinião

A qualquer momento, sem justificativa e sem constrangimento.

Uma segunda opinião rende quando você leva o material: resumo dos ciclos, laudos, relatórios. Sem isso, o segundo serviço parte do zero e o aprendizado do que já foi feito se perde.

Vale dizer também que buscar segunda opinião não obriga a mudar de serviço. Muitas vezes ela confirma a condução e traz tranquilidade — o que já é resultado.

O direito de recusar e de interromper

Você pode recusar um procedimento proposto e pode interromper o tratamento a qualquer momento.

Na prática, o que exige atenção são as consequências: o que acontece com material já congelado, com valores pagos, com o ciclo em andamento. Essas condições deveriam estar no contrato, e vale lê-las antes de assinar.

A interrupção do tratamento é uma escolha legítima e raramente apresentada como tal. Um plano de tratamento que inclui "até onde vamos" é mais respeitoso do que um que só contempla continuar.

O direito à proteção dos dados

Dados de saúde são dados sensíveis pela LGPD, com proteção específica.

O acesso é restrito à equipe envolvida no seu cuidado. Qualquer outro uso — pesquisa, divulgação, depoimento, imagem — exige consentimento explícito, documentado, e para uma finalidade específica.

Isso significa, entre outras coisas, que ninguém pode usar sua história, sua foto ou seu resultado em material de divulgação sem autorização documentada. E que autorizar para uma finalidade não autoriza para outra.

Os direitos específicos da reprodução assistida

Somam-se aos gerais, e decorrem da Resolução CFM 2.320/2022 e da norma sanitária.

Consentimento informado documentado para cada etapa, com informação sobre o que será feito com gametas e embriões.

Decisão sobre o destino dos embriões excedentes, que é do casal e precisa estar registrada. O tema está em destino dos embriões.

Direito de saber onde o material está armazenado e sob que condições, e de transferi-lo para outro serviço.

Acesso garantido independentemente de estado civil e de orientação sexual, como descrito em caminhos para formar família.

Informação sobre os limites da técnica, incluindo o fato de que reprodução assistida é obrigação de meio e não de resultado.

O que não é permitido ao serviço

Prometer resultado. Garantia de gravidez ou de bebê é vedada, e proposta que a contenha merece desconfiança.

Publicidade comparativa entre serviços, vedada pelo Código de Ética Médica e pela Resolução CFM 2.336/2023.

Divulgar taxas de sucesso como propaganda, com a responsabilidade recaindo sobre o diretor técnico.

Condicionar informação a pagamento, retendo laudos ou o prontuário.

Realizar procedimento sem consentimento específico, incluindo técnicas adicionais não discutidas.

Selecionar características do embrião sem finalidade médica, incluindo sexo por preferência.

Os direitos na relação de consumo

Além da dimensão médica, existe uma dimensão contratual — e ela costuma ser a origem dos conflitos mais concretos.

O orçamento deve ser discriminado, com o que está incluído e o que não está. O que costuma ficar de fora está listado em custo do tratamento, e a pergunta a fazer é objetiva: o que mais eu vou pagar além disso?

O contrato de armazenamento de material congelado precisa dizer o valor, a periodicidade, o reajuste, e o que acontece em caso de inadimplência. Este último item é o mais importante e o menos lido.

Alterações de preço durante um tratamento em curso precisam estar previstas, e a forma de reajuste deve ser conhecida de antemão.

Pacotes com número de tentativas exigem leitura cuidadosa do que conta como tentativa, do que acontece se um ciclo for cancelado, e de como funciona a devolução, quando existe.

Nada disso é desconfiança. É o mesmo cuidado que se tem em qualquer contrato relevante — e este costuma ser um dos mais caros que uma família assina.

O direito de quem não é casal heterossexual

Vale um registro próprio, porque a barreira aqui costuma ser prática antes de ser jurídica.

O acesso à reprodução assistida independe de estado civil e de orientação sexual. Casais de mulheres, casais de homens, mulheres solteiras e homens solteiros têm o mesmo direito ao tratamento, e a recusa por essas razões não se sustenta.

Na prática, o que se encontra são obstáculos menores e cansativos: formulários que só preveem "esposo", equipes que não sabem responder sobre o registro civil da criança, orientações desencontradas sobre documentação.

Duas coisas ajudam a antecipar isso. Perguntar, na primeira consulta, quantos casos como o seu o serviço acompanha. E resolver a parte documental cedo, com apoio jurídico quando necessário — os percursos estão em caminhos para formar família.

Como exercer esses direitos sem atrito

Na prática, a maior parte dos problemas se resolve com pedidos objetivos e educados, feitos por escrito.

Peça por escrito. Resumo do ciclo, orçamento discriminado, orientação sobre medicação, política do serviço em situações específicas.

Pergunte o porquê de cada indicação. "O que isso vai mudar no meu caso?" é uma pergunta legítima e reveladora.

Guarde tudo. Laudos, relatórios, orçamentos, orientações. Você vai precisar.

Registre o que foi combinado, sobretudo em conversas por telefone ou mensagem.

Se o serviço reagir mal a qualquer uma dessas coisas, isso é informação sobre a relação — e, num tratamento longo e caro, uma relação que não funciona é motivo suficiente para procurar outro lugar.

O direito à informação sobre o laboratório

Uma parte do tratamento acontece fora do seu campo de visão, e você tem direito a saber o que ocorre nela.

O que aconteceu com os seus óvulos e embriões, dia a dia: quantos foram coletados, quantos estavam maduros, quantos fertilizaram, quantos chegaram a blastocisto e como foram classificados. Esses números são o que permite entender o ciclo, e o raciocínio está em desenvolvimento embrionário.

Onde o material está armazenado, e sob que condições de monitoramento.

Quais técnicas adicionais foram usadas, e por quê. Nenhum procedimento sobre os seus embriões deveria ser feito sem que tenha sido discutido e consentido.

Como o serviço garante a identificação das amostras ao longo do processo. É uma pergunta legítima, que serviços organizados respondem sem desconforto.

Vale registrar: pedir esses números não é fiscalizar a equipe. É o que torna possível decidir o próximo passo com base no que aconteceu, em vez de com base numa impressão geral.

O direito de decidir junto

Há um direito que não aparece em lista nenhuma e que sustenta todos os outros: o de participar da decisão, e não apenas de autorizá-la.

A diferença é concreta. Consentir é dizer sim a um plano pronto. Decidir junto é ter as alternativas na mesa, com o que cada uma custa e o que cada uma oferece, e escolher com base nos seus valores e nas suas circunstâncias.

Boa parte das escolhas em reprodução assistida não tem resposta técnica única. Quantas tentativas fazer, se testar embriões, quando considerar ovodoação, quando parar — nenhuma dessas é decidida por um exame. São decisões em que a informação vem da equipe e o peso vem de você.

Um sinal prático de que a relação funciona: quando você pergunta "o que o senhor faria no meu lugar?", a resposta reconhece que o lugar não é o mesmo — e volta a pergunta para o que importa para você.

Quando algo dá errado

Converse primeiro com o próprio serviço, com a direção clínica. Boa parte dos problemas decorre de falha de comunicação que a direção desconhece.

Quando houver conduta que você considere inadequada, o Conselho Regional de Medicina recebe reclamações e é a instância própria para isso.

E, em qualquer caso, você pode mudar de serviço levando seus documentos. Isso não é ingratidão nem abandono: é o exercício de uma escolha que sempre foi sua.

Perguntas frequentes

Posso pedir meu prontuário?

Sim. O prontuário é do paciente, e você tem direito de acesso, incluindo laudos, relatórios de procedimentos e o resumo dos ciclos. O serviço guarda o documento; a informação é sua. Pedir por escrito facilita.

Posso buscar segunda opinião?

Sim, a qualquer momento, sem precisar justificar. Levar o resumo dos ciclos e os laudos é o que torna a segunda opinião útil, e um serviço que dificulte esse acesso está sinalizando algo.

Posso interromper o tratamento no meio?

Pode, a qualquer momento. O que exige atenção são as consequências práticas: o que acontece com o material já congelado, com valores pagos e com o que estava programado. Essas condições deveriam estar no contrato.

Tenho direito a saber os números do meu ciclo?

Sim. Quantos óvulos, quantos maduros, quantos fertilizaram, quantos blastocistos, a classificação de cada um. Essa informação é parte do seu prontuário e é o insumo de qualquer avaliação futura. Peça por escrito ao fim de cada ciclo.

Quem tem acesso aos meus dados?

Dados de saúde são dados sensíveis pela LGPD, com proteção específica. O acesso é restrito à equipe envolvida no seu cuidado, e o uso para qualquer outra finalidade — pesquisa, divulgação, depoimento — exige consentimento explícito e documentado.

E se eu me sentir mal atendida?

Você pode buscar outro serviço e, quando houver conduta que considere inadequada, registrar reclamação no Conselho Regional de Medicina. Também vale conversar diretamente com a direção do serviço, que muitas vezes desconhece o que aconteceu.

Fontes

Você tem direito à informação clara sobre diagnóstico, alternativas, riscos e prognóstico; ao acesso ao seu prontuário e aos seus laudos; à segunda opinião; a recusar ou interromper o tratamento a qualquer momento; e à proteção dos seus dados de saúde. Em reprodução assistida, somam-se as regras específicas sobre gametas, embriões e consentimento.

Por que isso importa aqui

Reprodução assistida reúne características que tornam os direitos do paciente especialmente relevantes: tratamento longo, caro, emocionalmente intenso, com assimetria grande de informação entre quem trata e quem é tratado.

Nesse contexto, é fácil que decisões sejam tomadas sem que o paciente entenda por completo o que está escolhendo, que informações fiquem retidas, e que a relação assimétrica desencoraje perguntas.

Conhecer os próprios direitos não é desconfiança do serviço. É o que permite participar da decisão em vez de apenas consentir com ela.

O direito à informação

A Lei 15.378/2026, o Estatuto dos Direitos do Paciente, reforça o que já decorria do Código de Ética Médica e do Código de Defesa do Consumidor: você tem direito a informação clara e compreensível sobre diagnóstico, alternativas de tratamento, riscos, prognóstico e custos.

Na prática, isso significa direito a:

Saber o seu diagnóstico, com a hipótese e o raciocínio que levou a ela.

Conhecer as alternativas, inclusive a de não tratar, e o que se espera de cada uma.

Entender o prognóstico do seu caso, com base nos seus dados — não numa taxa genérica. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.

Saber os riscos de cada procedimento proposto.

Receber explicação em linguagem que você entenda, e pedir que se repita quantas vezes for necessário.

Ter tempo para decidir, sem pressão de agenda.

O direito ao prontuário

O prontuário é do paciente. O serviço tem o dever de guardá-lo; a informação pertence a você.

Isso inclui laudos de exames, relatórios de procedimentos, descrições cirúrgicas e — o item mais valioso em reprodução assistida — o resumo dos ciclos com todos os números.

Peça esse resumo por escrito ao fim de cada ciclo, mesmo quando o resultado foi positivo. Ele é o insumo de qualquer avaliação futura, de qualquer segunda opinião, e de qualquer decisão sobre o próximo passo. O que ele deve conter está em quando a FIV não dá certo.

Serviço que dificulta esse acesso está sinalizando algo sobre como opera.

O que um consentimento bem feito contém

Vale destrinchar, porque o termo de consentimento é o documento mais assinado e o menos lido de todo o tratamento.

Ele não é uma formalidade de proteção do serviço. É o registro de uma conversa que precisa ter acontecido — e, se a conversa não aconteceu, a assinatura não a substitui.

Um termo adequado descreve:

O que será feito, em linguagem compreensível, etapa por etapa.

Os riscos previsíveis, incluindo os pouco frequentes e sérios.

As alternativas, inclusive a de não fazer.

O que se espera do resultado, sem promessa.

O que acontece com gametas e embriões: onde ficam, por quanto tempo, sob que custo, e o que ocorre em situações de separação, de perda de contato ou de falecimento.

O custo, discriminado.

Três orientações práticas. Leve o termo para casa e leia antes de assinar, sempre que possível. Pergunte tudo o que não entender, e não assine com dúvida pendente. E guarde uma via — ela é sua, e vai importar se algo for discutido depois.

Assinar um documento que você não leu é abrir mão do direito que ele existe para proteger.

O direito à segunda opinião

A qualquer momento, sem justificativa e sem constrangimento.

Uma segunda opinião rende quando você leva o material: resumo dos ciclos, laudos, relatórios. Sem isso, o segundo serviço parte do zero e o aprendizado do que já foi feito se perde.

Vale dizer também que buscar segunda opinião não obriga a mudar de serviço. Muitas vezes ela confirma a condução e traz tranquilidade — o que já é resultado.

O direito de recusar e de interromper

Você pode recusar um procedimento proposto e pode interromper o tratamento a qualquer momento.

Na prática, o que exige atenção são as consequências: o que acontece com material já congelado, com valores pagos, com o ciclo em andamento. Essas condições deveriam estar no contrato, e vale lê-las antes de assinar.

A interrupção do tratamento é uma escolha legítima e raramente apresentada como tal. Um plano de tratamento que inclui "até onde vamos" é mais respeitoso do que um que só contempla continuar.

O direito à proteção dos dados

Dados de saúde são dados sensíveis pela LGPD, com proteção específica.

O acesso é restrito à equipe envolvida no seu cuidado. Qualquer outro uso — pesquisa, divulgação, depoimento, imagem — exige consentimento explícito, documentado, e para uma finalidade específica.

Isso significa, entre outras coisas, que ninguém pode usar sua história, sua foto ou seu resultado em material de divulgação sem autorização documentada. E que autorizar para uma finalidade não autoriza para outra.

Os direitos específicos da reprodução assistida

Somam-se aos gerais, e decorrem da Resolução CFM 2.320/2022 e da norma sanitária.

Consentimento informado documentado para cada etapa, com informação sobre o que será feito com gametas e embriões.

Decisão sobre o destino dos embriões excedentes, que é do casal e precisa estar registrada. O tema está em destino dos embriões.

Direito de saber onde o material está armazenado e sob que condições, e de transferi-lo para outro serviço.

Acesso garantido independentemente de estado civil e de orientação sexual, como descrito em caminhos para formar família.

Informação sobre os limites da técnica, incluindo o fato de que reprodução assistida é obrigação de meio e não de resultado.

O que não é permitido ao serviço

Prometer resultado. Garantia de gravidez ou de bebê é vedada, e proposta que a contenha merece desconfiança.

Publicidade comparativa entre serviços, vedada pelo Código de Ética Médica e pela Resolução CFM 2.336/2023.

Divulgar taxas de sucesso como propaganda, com a responsabilidade recaindo sobre o diretor técnico.

Condicionar informação a pagamento, retendo laudos ou o prontuário.

Realizar procedimento sem consentimento específico, incluindo técnicas adicionais não discutidas.

Selecionar características do embrião sem finalidade médica, incluindo sexo por preferência.

Os direitos na relação de consumo

Além da dimensão médica, existe uma dimensão contratual — e ela costuma ser a origem dos conflitos mais concretos.

O orçamento deve ser discriminado, com o que está incluído e o que não está. O que costuma ficar de fora está listado em custo do tratamento, e a pergunta a fazer é objetiva: o que mais eu vou pagar além disso?

O contrato de armazenamento de material congelado precisa dizer o valor, a periodicidade, o reajuste, e o que acontece em caso de inadimplência. Este último item é o mais importante e o menos lido.

Alterações de preço durante um tratamento em curso precisam estar previstas, e a forma de reajuste deve ser conhecida de antemão.

Pacotes com número de tentativas exigem leitura cuidadosa do que conta como tentativa, do que acontece se um ciclo for cancelado, e de como funciona a devolução, quando existe.

Nada disso é desconfiança. É o mesmo cuidado que se tem em qualquer contrato relevante — e este costuma ser um dos mais caros que uma família assina.

O direito de quem não é casal heterossexual

Vale um registro próprio, porque a barreira aqui costuma ser prática antes de ser jurídica.

O acesso à reprodução assistida independe de estado civil e de orientação sexual. Casais de mulheres, casais de homens, mulheres solteiras e homens solteiros têm o mesmo direito ao tratamento, e a recusa por essas razões não se sustenta.

Na prática, o que se encontra são obstáculos menores e cansativos: formulários que só preveem "esposo", equipes que não sabem responder sobre o registro civil da criança, orientações desencontradas sobre documentação.

Duas coisas ajudam a antecipar isso. Perguntar, na primeira consulta, quantos casos como o seu o serviço acompanha. E resolver a parte documental cedo, com apoio jurídico quando necessário — os percursos estão em caminhos para formar família.

Como exercer esses direitos sem atrito

Na prática, a maior parte dos problemas se resolve com pedidos objetivos e educados, feitos por escrito.

Peça por escrito. Resumo do ciclo, orçamento discriminado, orientação sobre medicação, política do serviço em situações específicas.

Pergunte o porquê de cada indicação. "O que isso vai mudar no meu caso?" é uma pergunta legítima e reveladora.

Guarde tudo. Laudos, relatórios, orçamentos, orientações. Você vai precisar.

Registre o que foi combinado, sobretudo em conversas por telefone ou mensagem.

Se o serviço reagir mal a qualquer uma dessas coisas, isso é informação sobre a relação — e, num tratamento longo e caro, uma relação que não funciona é motivo suficiente para procurar outro lugar.

O direito à informação sobre o laboratório

Uma parte do tratamento acontece fora do seu campo de visão, e você tem direito a saber o que ocorre nela.

O que aconteceu com os seus óvulos e embriões, dia a dia: quantos foram coletados, quantos estavam maduros, quantos fertilizaram, quantos chegaram a blastocisto e como foram classificados. Esses números são o que permite entender o ciclo, e o raciocínio está em desenvolvimento embrionário.

Onde o material está armazenado, e sob que condições de monitoramento.

Quais técnicas adicionais foram usadas, e por quê. Nenhum procedimento sobre os seus embriões deveria ser feito sem que tenha sido discutido e consentido.

Como o serviço garante a identificação das amostras ao longo do processo. É uma pergunta legítima, que serviços organizados respondem sem desconforto.

Vale registrar: pedir esses números não é fiscalizar a equipe. É o que torna possível decidir o próximo passo com base no que aconteceu, em vez de com base numa impressão geral.

O direito de decidir junto

Há um direito que não aparece em lista nenhuma e que sustenta todos os outros: o de participar da decisão, e não apenas de autorizá-la.

A diferença é concreta. Consentir é dizer sim a um plano pronto. Decidir junto é ter as alternativas na mesa, com o que cada uma custa e o que cada uma oferece, e escolher com base nos seus valores e nas suas circunstâncias.

Boa parte das escolhas em reprodução assistida não tem resposta técnica única. Quantas tentativas fazer, se testar embriões, quando considerar ovodoação, quando parar — nenhuma dessas é decidida por um exame. São decisões em que a informação vem da equipe e o peso vem de você.

Um sinal prático de que a relação funciona: quando você pergunta "o que o senhor faria no meu lugar?", a resposta reconhece que o lugar não é o mesmo — e volta a pergunta para o que importa para você.

Quando algo dá errado

Converse primeiro com o próprio serviço, com a direção clínica. Boa parte dos problemas decorre de falha de comunicação que a direção desconhece.

Quando houver conduta que você considere inadequada, o Conselho Regional de Medicina recebe reclamações e é a instância própria para isso.

E, em qualquer caso, você pode mudar de serviço levando seus documentos. Isso não é ingratidão nem abandono: é o exercício de uma escolha que sempre foi sua.

Perguntas frequentes

Posso pedir meu prontuário?

Sim. O prontuário é do paciente, e você tem direito de acesso, incluindo laudos, relatórios de procedimentos e o resumo dos ciclos. O serviço guarda o documento; a informação é sua. Pedir por escrito facilita.

Posso buscar segunda opinião?

Sim, a qualquer momento, sem precisar justificar. Levar o resumo dos ciclos e os laudos é o que torna a segunda opinião útil, e um serviço que dificulte esse acesso está sinalizando algo.

Posso interromper o tratamento no meio?

Pode, a qualquer momento. O que exige atenção são as consequências práticas: o que acontece com o material já congelado, com valores pagos e com o que estava programado. Essas condições deveriam estar no contrato.

Tenho direito a saber os números do meu ciclo?

Sim. Quantos óvulos, quantos maduros, quantos fertilizaram, quantos blastocistos, a classificação de cada um. Essa informação é parte do seu prontuário e é o insumo de qualquer avaliação futura. Peça por escrito ao fim de cada ciclo.

Quem tem acesso aos meus dados?

Dados de saúde são dados sensíveis pela LGPD, com proteção específica. O acesso é restrito à equipe envolvida no seu cuidado, e o uso para qualquer outra finalidade — pesquisa, divulgação, depoimento — exige consentimento explícito e documentado.

E se eu me sentir mal atendida?

Você pode buscar outro serviço e, quando houver conduta que considere inadequada, registrar reclamação no Conselho Regional de Medicina. Também vale conversar diretamente com a direção do serviço, que muitas vezes desconhece o que aconteceu.

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