FIV

Espermograma: como entender o resultado linha por linha

Espermograma: como entender o resultado linha por linha

Espermograma: como entender o resultado linha por linha

Dr. Edson Lo Turco

Dr. Edson Lo Turco

Dr. Edson Lo Turco

CRMV-SP 23329

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O espermograma mede volume, concentração, número total, motilidade, morfologia e vitalidade dos espermatozoides. Os valores de referência da OMS descrevem a distribuição encontrada em homens que engravidaram suas parceiras, e não uma fronteira entre fértil e infértil. Um resultado alterado costuma pedir repetição, porque a variação entre amostras do mesmo homem é grande.

A coleta determina o resultado

Antes de interpretar qualquer número, vale saber que o exame começa antes do laboratório.

Abstinência de dois a sete dias. Menos reduz volume e concentração. Muito mais aumenta a proporção de espermatozoides velhos e com DNA danificado. O número de dias precisa constar no laudo, porque muda a leitura.

Coleta por masturbação, em recipiente estéril, sem lubrificante e sem preservativo comum, que contêm substâncias tóxicas aos espermatozoides.

Amostra completa. A primeira fração do ejaculado concentra a maior parte dos espermatozoides. Perder parte dela altera o resultado.

Entrega rápida e temperatura próxima à corporal, quando a coleta é feita fora do serviço.

Uma coleta mal feita produz um exame que não representa nada, e leva a decisões erradas. Se algo saiu do previsto, diga ao laboratório em vez de deixar passar.

Linha por linha

Volume

O quanto foi ejaculado. Volume muito baixo pode indicar coleta incompleta, obstrução dos ductos ejaculatórios ou ejaculação retrógrada, em que o sêmen segue para a bexiga. Volume muito baixo associado a pH ácido e ausência de espermatozoides sugere obstrução ou ausência congênita dos ductos deferentes.

Concentração e número total

Concentração é quantos espermatozoides existem por mililitro. Número total é a concentração multiplicada pelo volume.

O número total costuma ser mais informativo, porque não sofre a diluição de um volume grande. Um homem com concentração aparentemente baixa e volume alto pode ter número total adequado.

Motilidade

A proporção de espermatozoides que se movem, e como. O que mais importa é a motilidade progressiva, a fração que avança em linha, porque é ela que percorreria o trajeto até o óvulo.

O número que o laboratório de reprodução realmente usa é derivado dessa medida: a quantidade de espermatozoides móveis recuperada depois do preparo da amostra. É esse valor, e não o do espermograma bruto, que decide entre FIV clássica e ICSI no dia da coleta.

Morfologia

A proporção de espermatozoides com forma considerada normal, avaliada por critérios estritos. É o parâmetro mais sujeito à variação entre laboratórios e entre observadores.

Isolada, uma morfologia baixa raramente muda conduta. Ela pesa quando acompanha alterações de concentração e motilidade.

Vitalidade

Distingue espermatozoides imóveis vivos de mortos. É pedida principalmente quando a motilidade está muito baixa, porque a diferença muda o raciocínio: imóveis vivos podem ser usados em ICSI.

Os demais parâmetros

pH, tempo de liquefação, viscosidade e presença de leucócitos. Leucócitos acima do esperado levantam a hipótese de infecção ou inflamação do trato reprodutivo, que pode ser investigada e tratada.

O que os valores de referência realmente são

Este é o ponto que muda a leitura do exame inteiro, e é o menos explicado.

Os valores de referência do manual da OMS não foram construídos comparando homens férteis com inférteis. Eles vieram de homens cujas parceiras engravidaram dentro de um ano de tentativas, e o valor publicado corresponde ao limite inferior dessa distribuição.

Ou seja: uma parte dos homens que engravidaram suas parceiras está abaixo da referência. O corte não separa quem consegue de quem não consegue; ele marca onde começa a faixa menos frequente entre os que conseguiram.

Duas consequências práticas. Estar abaixo da referência significa probabilidade menor por tentativa, não impossibilidade. E estar dentro da referência não garante nada, porque o exame não mede tudo o que importa.

A nomenclatura dos laudos

Termo

O que significa

Normozoospermia

Todos os parâmetros dentro da referência

Oligozoospermia

Concentração ou número total abaixo da referência

Astenozoospermia

Motilidade progressiva reduzida

Teratozoospermia

Morfologia normal reduzida

Oligoastenoteratozoospermia (OAT)

As três alterações combinadas

Criptozoospermia

Espermatozoides encontrados apenas após centrifugação

Azoospermia

Ausência de espermatozoides, mesmo após centrifugação

Necrozoospermia

Predomínio de espermatozoides mortos

Aspermia

Ausência de ejaculado

A azoospermia é o achado que mais muda a conduta e tem investigação própria. Ela só se confirma em duas amostras, analisadas após centrifugação.

Exames que às vezes acompanham o espermograma

Alguns exames aparecem no mesmo pedido ou vêm depois, e vale saber o que cada um acrescenta.

Pesquisa de espermatozoides na urina pós-ejaculação. Indicada quando o volume do ejaculado é muito baixo ou ausente. Encontrar espermatozoides na urina confirma ejaculação retrógrada, em que o sêmen segue para a bexiga em vez de sair — condição com causas e manejo próprios, e em que o material pode ser recuperado da própria urina.

Cultura de sêmen. Pedida diante de leucócitos aumentados ou de suspeita clínica de infecção. Vale lembrar que a presença de bactérias sem sinais de infecção nem sempre indica tratamento.

Teste de vitalidade. Já mencionado, e decisivo quando a motilidade é próxima de zero: distinguir imóveis vivos de mortos muda completamente o que se pode fazer no laboratório.

Teste pós-coital. Praticamente abandonado na investigação moderna, por baixa reprodutibilidade e por não alterar conduta. Se for oferecido a você, vale perguntar o que ele mudaria.

Dosagens hormonais. Não fazem parte do espermograma, mas costumam ser solicitadas junto quando há alteração relevante, sinais de hipogonadismo ou queixas associadas.

Como em qualquer solicitação, o critério é o mesmo: se o resultado não muda nenhuma conduta, o exame não precisa ser feito agora.

Por que dois laboratórios dão resultados diferentes

Essa é uma queixa frequente e nem sempre indica erro.

O espermograma é um exame com componente manual importante. A contagem depende de câmaras, diluições e do técnico. A avaliação da motilidade depende do intervalo entre a coleta e a leitura, da temperatura da lâmina e da experiência de quem observa. A morfologia é a mais sujeita a variação: exige critérios estritos, treinamento específico e é o parâmetro em que a divergência entre observadores é maior.

Some a isso a variação biológica real, que é grande no mesmo homem entre uma amostra e outra.

Três consequências práticas. Repita sempre no mesmo laboratório, quando possível. Prefira serviços que sigam o manual da OMS na edição vigente e que participem de programas de controle de qualidade. E não tire conclusão de uma diferença pequena entre dois exames: o que interessa é a tendência ao longo do tempo.

Os erros de coleta que mais atrapalham

Vale conhecer porque são fáceis de evitar e porque explicam boa parte dos resultados que assustam sem motivo.

Perder a primeira fração do ejaculado. É onde está a maior parte dos espermatozoides. Uma coleta parcial derruba concentração e número total.

Usar lubrificante ou preservativo comum. Ambos contêm substâncias tóxicas aos espermatozoides. Existem preservativos próprios para coleta, quando a masturbação não é uma opção.

Abstinência fora da faixa orientada. Curta demais reduz volume e concentração; longa demais aumenta a proporção de espermatozoides velhos.

Demora ou variação de temperatura no transporte. Afeta sobretudo a motilidade, que é medida em tempo.

Coletar durante ou logo após uma infecção ou febre alta. O efeito sobre a produção dura semanas. Se isso aconteceu nos três meses anteriores, informe.

Não informar o que está usando. Testosterona, anabolizantes e alguns medicamentos mudam completamente a leitura. A lista está em medicamentos e fertilidade masculina.

Como o resultado conversa com o tratamento

O espermograma não define sozinho a conduta, mas orienta o caminho, e entender essa correspondência ajuda a acompanhar o raciocínio da equipe.

Resultados dentro da referência apontam que o gargalo provavelmente está em outro lugar, e a investigação segue pelo lado feminino ou pelo que ficou sem explicação.

Alterações leves, com parceira jovem e sem outro fator, permitem tentar caminhos mais simples, como inseminação intrauterina, depois de tratar o que for modificável.

Alterações moderadas costumam levar à FIV, com a técnica de fertilização definida no dia, conforme o que o preparo da amostra devolve. O critério está em FIV clássica ou ICSI.

Alterações graves indicam FIV com ICSI, que fertiliza com pouquíssimos espermatozoides.

Ausência de espermatozoides confirmada é azoospermia, com investigação e conduta próprias.

O que o exame não mede

Integridade do DNA do espermatozoide, que exige o teste de fragmentação e não é rotina.

Capacidade funcional: ligação à zona pelúcida, reação acrossômica, competência para ativar o óvulo.

Presença de alterações genéticas, que dependem de cariótipo, pesquisa de microdeleções do cromossomo Y e análise do CFTR conforme o caso.

Por isso um espermograma normal não encerra a investigação masculina quando a história aponta em outra direção.

Sobre os valores impressos no seu laudo

Cada laboratório imprime ao lado do seu resultado os limites de referência que adota. Duas observações sobre eles.

A primeira é qual edição do manual da OMS o laboratório está seguindo. Os limites mudaram entre edições, e comparar um exame recente com outro de anos atrás, sem checar isso, produz conclusões erradas sobre piora ou melhora.

A segunda já foi dita e vale repetir, porque é a mais importante: esses limites marcam o percentil inferior de um grupo de homens férteis, e não a fronteira entre quem consegue e quem não consegue. A palavra "normal" no laudo confunde mais do que ajuda.

Se você quiser conferir os limites da edição vigente, o manual da OMS é público. E se o seu resultado estiver ligeiramente abaixo de algum deles, a conduta raramente é dramática: costuma ser repetir, revisar o que é modificável e olhar o conjunto.

Quando um resultado normal não encerra a investigação

Um espermograma dentro da referência é uma boa notícia e não é um atestado.

Ele não avalia a integridade do DNA, e um homem com todos os parâmetros normais pode ter fragmentação elevada — hipótese que ganha peso diante de perdas gestacionais de repetição, embriões de má qualidade ou falhas de FIV sem explicação.

Ele não avalia função. Capacidade de atravessar as barreiras do óvulo, de se ligar à zona pelúcida e de ativar o óvulo são etapas que não aparecem na contagem.

Ele não detecta alterações genéticas que possam ser transmitidas, e que dependem de exames específicos indicados conforme o quadro.

E ele não diz nada sobre a chegada do sêmen ao lugar certo. Disfunções ejaculatórias, dificuldades sexuais e questões de frequência e de timing das relações não aparecem em nenhum parâmetro, e são causas frequentes de dificuldade em casais cujos exames estão todos normais.

Por isso o exame normal encerra uma hipótese, não a investigação. Quando a história aponta em outra direção, ela precisa ser seguida. O roteiro completo está em infertilidade masculina.

Depois do resultado

Alterado pela primeira vez: repetir depois de algumas semanas, com atenção às condições de coleta. Se houve febre, infecção ou período de estresse importante nos três meses anteriores, isso conta.

Alteração confirmada: a investigação segue com exame físico, dosagens hormonais e, conforme o quadro, ultrassom e genética. O caminho está em infertilidade masculina.

Alteração leve: vale rever os fatores modificáveis antes de qualquer outra coisa, lembrando do prazo de três meses para ver efeito. A lista do que tem evidência está em como melhorar a qualidade do sêmen.

Guarde os laudos, inclusive os antigos. A comparação ao longo do tempo diz mais do que qualquer resultado isolado.

Perguntas frequentes

Quantos dias de abstinência antes do exame?

O padrão é de dois a sete dias. Menos do que isso reduz volume e concentração; muito mais aumenta a proporção de espermatozoides velhos e com DNA danificado. O importante é seguir a orientação recebida e informar no laudo quantos dias foram, porque a interpretação depende disso.

Por que preciso repetir o exame?

Porque a variação entre amostras do mesmo homem é grande, e uma coleta ruim num período ruim não representa a média. Quando o primeiro resultado vem alterado, costuma-se repetir depois de algumas semanas. Se houve febre, infecção ou estresse importante no período, a repetição é ainda mais necessária.

Estou abaixo da referência. Sou infértil?

Não. Os valores de referência da OMS foram construídos a partir de homens cujas parceiras engravidaram dentro de um ano, e marcam o percentil inferior desse grupo. Estar abaixo indica probabilidade menor por tentativa, não impossibilidade. Muitos homens com resultados abaixo da referência têm filhos naturalmente.

A morfologia baixa é grave?

Isolada, quase nunca. A morfologia é o parâmetro mais sujeito a variação entre laboratórios e o de correlação mais discutida com resultado de tratamento. Ela pesa mais quando vem acompanhada de alterações na concentração e na motilidade.

Quanto tempo leva para o resultado mudar?

Cerca de três meses. A produção de um espermatozoide leva em torno de setenta e quatro dias, mais o tempo de trânsito até o ejaculado. Qualquer mudança, para melhor ou para pior, só aparece no exame depois desse intervalo.

O espermograma avalia o DNA do espermatozoide?

Não. Ele avalia número, movimento e forma. Integridade do DNA, capacidade de ligação ao óvulo e função são coisas que exigem exames específicos, e nenhuma delas é vista na análise convencional.

Fontes

  • Organização Mundial da Saúde — WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6ª edição (2021)

  • European Association of Urology — Guidelines on Sexual and Reproductive Health

O espermograma mede volume, concentração, número total, motilidade, morfologia e vitalidade dos espermatozoides. Os valores de referência da OMS descrevem a distribuição encontrada em homens que engravidaram suas parceiras, e não uma fronteira entre fértil e infértil. Um resultado alterado costuma pedir repetição, porque a variação entre amostras do mesmo homem é grande.

A coleta determina o resultado

Antes de interpretar qualquer número, vale saber que o exame começa antes do laboratório.

Abstinência de dois a sete dias. Menos reduz volume e concentração. Muito mais aumenta a proporção de espermatozoides velhos e com DNA danificado. O número de dias precisa constar no laudo, porque muda a leitura.

Coleta por masturbação, em recipiente estéril, sem lubrificante e sem preservativo comum, que contêm substâncias tóxicas aos espermatozoides.

Amostra completa. A primeira fração do ejaculado concentra a maior parte dos espermatozoides. Perder parte dela altera o resultado.

Entrega rápida e temperatura próxima à corporal, quando a coleta é feita fora do serviço.

Uma coleta mal feita produz um exame que não representa nada, e leva a decisões erradas. Se algo saiu do previsto, diga ao laboratório em vez de deixar passar.

Linha por linha

Volume

O quanto foi ejaculado. Volume muito baixo pode indicar coleta incompleta, obstrução dos ductos ejaculatórios ou ejaculação retrógrada, em que o sêmen segue para a bexiga. Volume muito baixo associado a pH ácido e ausência de espermatozoides sugere obstrução ou ausência congênita dos ductos deferentes.

Concentração e número total

Concentração é quantos espermatozoides existem por mililitro. Número total é a concentração multiplicada pelo volume.

O número total costuma ser mais informativo, porque não sofre a diluição de um volume grande. Um homem com concentração aparentemente baixa e volume alto pode ter número total adequado.

Motilidade

A proporção de espermatozoides que se movem, e como. O que mais importa é a motilidade progressiva, a fração que avança em linha, porque é ela que percorreria o trajeto até o óvulo.

O número que o laboratório de reprodução realmente usa é derivado dessa medida: a quantidade de espermatozoides móveis recuperada depois do preparo da amostra. É esse valor, e não o do espermograma bruto, que decide entre FIV clássica e ICSI no dia da coleta.

Morfologia

A proporção de espermatozoides com forma considerada normal, avaliada por critérios estritos. É o parâmetro mais sujeito à variação entre laboratórios e entre observadores.

Isolada, uma morfologia baixa raramente muda conduta. Ela pesa quando acompanha alterações de concentração e motilidade.

Vitalidade

Distingue espermatozoides imóveis vivos de mortos. É pedida principalmente quando a motilidade está muito baixa, porque a diferença muda o raciocínio: imóveis vivos podem ser usados em ICSI.

Os demais parâmetros

pH, tempo de liquefação, viscosidade e presença de leucócitos. Leucócitos acima do esperado levantam a hipótese de infecção ou inflamação do trato reprodutivo, que pode ser investigada e tratada.

O que os valores de referência realmente são

Este é o ponto que muda a leitura do exame inteiro, e é o menos explicado.

Os valores de referência do manual da OMS não foram construídos comparando homens férteis com inférteis. Eles vieram de homens cujas parceiras engravidaram dentro de um ano de tentativas, e o valor publicado corresponde ao limite inferior dessa distribuição.

Ou seja: uma parte dos homens que engravidaram suas parceiras está abaixo da referência. O corte não separa quem consegue de quem não consegue; ele marca onde começa a faixa menos frequente entre os que conseguiram.

Duas consequências práticas. Estar abaixo da referência significa probabilidade menor por tentativa, não impossibilidade. E estar dentro da referência não garante nada, porque o exame não mede tudo o que importa.

A nomenclatura dos laudos

Termo

O que significa

Normozoospermia

Todos os parâmetros dentro da referência

Oligozoospermia

Concentração ou número total abaixo da referência

Astenozoospermia

Motilidade progressiva reduzida

Teratozoospermia

Morfologia normal reduzida

Oligoastenoteratozoospermia (OAT)

As três alterações combinadas

Criptozoospermia

Espermatozoides encontrados apenas após centrifugação

Azoospermia

Ausência de espermatozoides, mesmo após centrifugação

Necrozoospermia

Predomínio de espermatozoides mortos

Aspermia

Ausência de ejaculado

A azoospermia é o achado que mais muda a conduta e tem investigação própria. Ela só se confirma em duas amostras, analisadas após centrifugação.

Exames que às vezes acompanham o espermograma

Alguns exames aparecem no mesmo pedido ou vêm depois, e vale saber o que cada um acrescenta.

Pesquisa de espermatozoides na urina pós-ejaculação. Indicada quando o volume do ejaculado é muito baixo ou ausente. Encontrar espermatozoides na urina confirma ejaculação retrógrada, em que o sêmen segue para a bexiga em vez de sair — condição com causas e manejo próprios, e em que o material pode ser recuperado da própria urina.

Cultura de sêmen. Pedida diante de leucócitos aumentados ou de suspeita clínica de infecção. Vale lembrar que a presença de bactérias sem sinais de infecção nem sempre indica tratamento.

Teste de vitalidade. Já mencionado, e decisivo quando a motilidade é próxima de zero: distinguir imóveis vivos de mortos muda completamente o que se pode fazer no laboratório.

Teste pós-coital. Praticamente abandonado na investigação moderna, por baixa reprodutibilidade e por não alterar conduta. Se for oferecido a você, vale perguntar o que ele mudaria.

Dosagens hormonais. Não fazem parte do espermograma, mas costumam ser solicitadas junto quando há alteração relevante, sinais de hipogonadismo ou queixas associadas.

Como em qualquer solicitação, o critério é o mesmo: se o resultado não muda nenhuma conduta, o exame não precisa ser feito agora.

Por que dois laboratórios dão resultados diferentes

Essa é uma queixa frequente e nem sempre indica erro.

O espermograma é um exame com componente manual importante. A contagem depende de câmaras, diluições e do técnico. A avaliação da motilidade depende do intervalo entre a coleta e a leitura, da temperatura da lâmina e da experiência de quem observa. A morfologia é a mais sujeita a variação: exige critérios estritos, treinamento específico e é o parâmetro em que a divergência entre observadores é maior.

Some a isso a variação biológica real, que é grande no mesmo homem entre uma amostra e outra.

Três consequências práticas. Repita sempre no mesmo laboratório, quando possível. Prefira serviços que sigam o manual da OMS na edição vigente e que participem de programas de controle de qualidade. E não tire conclusão de uma diferença pequena entre dois exames: o que interessa é a tendência ao longo do tempo.

Os erros de coleta que mais atrapalham

Vale conhecer porque são fáceis de evitar e porque explicam boa parte dos resultados que assustam sem motivo.

Perder a primeira fração do ejaculado. É onde está a maior parte dos espermatozoides. Uma coleta parcial derruba concentração e número total.

Usar lubrificante ou preservativo comum. Ambos contêm substâncias tóxicas aos espermatozoides. Existem preservativos próprios para coleta, quando a masturbação não é uma opção.

Abstinência fora da faixa orientada. Curta demais reduz volume e concentração; longa demais aumenta a proporção de espermatozoides velhos.

Demora ou variação de temperatura no transporte. Afeta sobretudo a motilidade, que é medida em tempo.

Coletar durante ou logo após uma infecção ou febre alta. O efeito sobre a produção dura semanas. Se isso aconteceu nos três meses anteriores, informe.

Não informar o que está usando. Testosterona, anabolizantes e alguns medicamentos mudam completamente a leitura. A lista está em medicamentos e fertilidade masculina.

Como o resultado conversa com o tratamento

O espermograma não define sozinho a conduta, mas orienta o caminho, e entender essa correspondência ajuda a acompanhar o raciocínio da equipe.

Resultados dentro da referência apontam que o gargalo provavelmente está em outro lugar, e a investigação segue pelo lado feminino ou pelo que ficou sem explicação.

Alterações leves, com parceira jovem e sem outro fator, permitem tentar caminhos mais simples, como inseminação intrauterina, depois de tratar o que for modificável.

Alterações moderadas costumam levar à FIV, com a técnica de fertilização definida no dia, conforme o que o preparo da amostra devolve. O critério está em FIV clássica ou ICSI.

Alterações graves indicam FIV com ICSI, que fertiliza com pouquíssimos espermatozoides.

Ausência de espermatozoides confirmada é azoospermia, com investigação e conduta próprias.

O que o exame não mede

Integridade do DNA do espermatozoide, que exige o teste de fragmentação e não é rotina.

Capacidade funcional: ligação à zona pelúcida, reação acrossômica, competência para ativar o óvulo.

Presença de alterações genéticas, que dependem de cariótipo, pesquisa de microdeleções do cromossomo Y e análise do CFTR conforme o caso.

Por isso um espermograma normal não encerra a investigação masculina quando a história aponta em outra direção.

Sobre os valores impressos no seu laudo

Cada laboratório imprime ao lado do seu resultado os limites de referência que adota. Duas observações sobre eles.

A primeira é qual edição do manual da OMS o laboratório está seguindo. Os limites mudaram entre edições, e comparar um exame recente com outro de anos atrás, sem checar isso, produz conclusões erradas sobre piora ou melhora.

A segunda já foi dita e vale repetir, porque é a mais importante: esses limites marcam o percentil inferior de um grupo de homens férteis, e não a fronteira entre quem consegue e quem não consegue. A palavra "normal" no laudo confunde mais do que ajuda.

Se você quiser conferir os limites da edição vigente, o manual da OMS é público. E se o seu resultado estiver ligeiramente abaixo de algum deles, a conduta raramente é dramática: costuma ser repetir, revisar o que é modificável e olhar o conjunto.

Quando um resultado normal não encerra a investigação

Um espermograma dentro da referência é uma boa notícia e não é um atestado.

Ele não avalia a integridade do DNA, e um homem com todos os parâmetros normais pode ter fragmentação elevada — hipótese que ganha peso diante de perdas gestacionais de repetição, embriões de má qualidade ou falhas de FIV sem explicação.

Ele não avalia função. Capacidade de atravessar as barreiras do óvulo, de se ligar à zona pelúcida e de ativar o óvulo são etapas que não aparecem na contagem.

Ele não detecta alterações genéticas que possam ser transmitidas, e que dependem de exames específicos indicados conforme o quadro.

E ele não diz nada sobre a chegada do sêmen ao lugar certo. Disfunções ejaculatórias, dificuldades sexuais e questões de frequência e de timing das relações não aparecem em nenhum parâmetro, e são causas frequentes de dificuldade em casais cujos exames estão todos normais.

Por isso o exame normal encerra uma hipótese, não a investigação. Quando a história aponta em outra direção, ela precisa ser seguida. O roteiro completo está em infertilidade masculina.

Depois do resultado

Alterado pela primeira vez: repetir depois de algumas semanas, com atenção às condições de coleta. Se houve febre, infecção ou período de estresse importante nos três meses anteriores, isso conta.

Alteração confirmada: a investigação segue com exame físico, dosagens hormonais e, conforme o quadro, ultrassom e genética. O caminho está em infertilidade masculina.

Alteração leve: vale rever os fatores modificáveis antes de qualquer outra coisa, lembrando do prazo de três meses para ver efeito. A lista do que tem evidência está em como melhorar a qualidade do sêmen.

Guarde os laudos, inclusive os antigos. A comparação ao longo do tempo diz mais do que qualquer resultado isolado.

Perguntas frequentes

Quantos dias de abstinência antes do exame?

O padrão é de dois a sete dias. Menos do que isso reduz volume e concentração; muito mais aumenta a proporção de espermatozoides velhos e com DNA danificado. O importante é seguir a orientação recebida e informar no laudo quantos dias foram, porque a interpretação depende disso.

Por que preciso repetir o exame?

Porque a variação entre amostras do mesmo homem é grande, e uma coleta ruim num período ruim não representa a média. Quando o primeiro resultado vem alterado, costuma-se repetir depois de algumas semanas. Se houve febre, infecção ou estresse importante no período, a repetição é ainda mais necessária.

Estou abaixo da referência. Sou infértil?

Não. Os valores de referência da OMS foram construídos a partir de homens cujas parceiras engravidaram dentro de um ano, e marcam o percentil inferior desse grupo. Estar abaixo indica probabilidade menor por tentativa, não impossibilidade. Muitos homens com resultados abaixo da referência têm filhos naturalmente.

A morfologia baixa é grave?

Isolada, quase nunca. A morfologia é o parâmetro mais sujeito a variação entre laboratórios e o de correlação mais discutida com resultado de tratamento. Ela pesa mais quando vem acompanhada de alterações na concentração e na motilidade.

Quanto tempo leva para o resultado mudar?

Cerca de três meses. A produção de um espermatozoide leva em torno de setenta e quatro dias, mais o tempo de trânsito até o ejaculado. Qualquer mudança, para melhor ou para pior, só aparece no exame depois desse intervalo.

O espermograma avalia o DNA do espermatozoide?

Não. Ele avalia número, movimento e forma. Integridade do DNA, capacidade de ligação ao óvulo e função são coisas que exigem exames específicos, e nenhuma delas é vista na análise convencional.

Fontes

  • Organização Mundial da Saúde — WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen, 6ª edição (2021)

  • European Association of Urology — Guidelines on Sexual and Reproductive Health

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