
FIV
Fertilização in vitro: guia completo do tratamento
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Prof. Dr. Fernando Prado Ferreira
Prof. Dr. Fernando Prado Ferreira
Prof. Dr. Fernando Prado Ferreira
CRM-SP 103.984 · RQE 391631
CRM-SP 103.984 · RQE 391631
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A FIV é o tratamento em que a fertilização acontece no laboratório, fora do corpo. Um ciclo tem cinco etapas: estimulação dos ovários por cerca de dez dias, coleta dos óvulos por punção, fertilização e cultivo dos embriões por até seis dias, transferência de um embrião ao útero e suporte hormonal até o teste de gravidez. Do início da medicação ao resultado passam-se em torno de quatro a seis semanas.
O que a FIV faz, em uma frase
Ela tira do corpo as etapas que dependem do encontro entre óvulo e espermatozoide e as executa em condições controladas. Óvulos são coletados diretamente do ovário, fertilizados no laboratório, e o embrião é colocado dentro do útero já formado.
Isso contorna vários obstáculos de uma vez: tubas comprometidas, alterações do sêmen, dificuldade de ovulação, ambiente pélvico inflamado. É o motivo de a FIV ser o tratamento de reprodução assistida com maior chance por tentativa.
O que ela não faz é criar qualidade onde ela não existe. A FIV usa os óvulos que você tem, com a competência que eles têm. Voltamos a isso no fim.
Para quem a FIV é indicada
As indicações mais frequentes:
obstrução ou ausência das tubas uterinas;
fator masculino relevante, inclusive azoospermia com recuperação cirúrgica;
endometriose, sobretudo em graus mais avançados;
idade materna mais avançada, quando o tempo pesa contra tratamentos mais lentos;
falha de tratamentos de baixa complexidade, como coito programado e inseminação;
infertilidade sem causa aparente após investigação completa;
necessidade de teste genético do embrião;
casais de mulheres, mulheres solteiras e demais configurações familiares que dependem de gametas de doador.
Ela também não é indicada em algumas situações, e isso se diz menos. Quando existe um fator corrigível — um distúrbio de ovulação tratável, um achado uterino operável, um problema hormonal — resolver a causa costuma ser melhor do que contorná-la.
As etapas de um ciclo
1. Preparo e investigação
Antes de qualquer medicação, o casal completa a investigação: reserva ovariana, avaliação uterina, sorologias e exames obrigatórios, espermograma. É nessa fase que se define o protocolo e a dose.
2. Estimulação ovariana
Cerca de dez dias de aplicações subcutâneas diárias de gonadotrofinas, com um segundo medicamento para impedir a ovulação espontânea no meio do caminho. O objetivo é fazer crescer, no mesmo ciclo, o grupo de folículos que naturalmente se perderia.
O acompanhamento é por ultrassom seriado e dosagens hormonais, a cada dois ou três dias. Quando os folículos atingem o tamanho adequado, aplica-se o gatilho, que dispara a maturação final. A estimulação ovariana tem um texto próprio, assim como as medicações usadas.
3. Coleta dos óvulos
Cerca de 34 a 36 horas depois do gatilho, a punção folicular é feita sob sedação, por via transvaginal, guiada por ultrassom. Dura em torno de vinte minutos. A paciente vai para casa no mesmo dia, com acompanhante.
No mesmo dia é colhida a amostra de sêmen, ou recuperado o material previamente congelado.
4. Laboratório
Os óvulos são avaliados quanto à maturidade, e só os maduros são usados. A fertilização acontece por FIV clássica ou por ICSI, conforme o caso.
No dia seguinte se confirma a fertilização. Nos dias que seguem, os embriões são cultivados em incubadora até o quinto ou sexto dia, quando alcançam o estágio de blastocisto. Nem todos chegam lá, e essa perda é biológica, não erro de laboratório. O caminho está descrito em desenvolvimento embrionário.
5. Transferência
A transferência é rápida, feita com um cateter fino guiado por ultrassom, sem necessidade de anestesia na maioria das vezes. Costuma-se transferir um embrião.
Em parte dos ciclos, nenhum embrião é transferido naquele momento: todos são vitrificados e a transferência acontece em um ciclo posterior. É a estratégia freeze-all, e ela tem indicações próprias.
6. Espera e resultado
Depois da transferência vem o suporte de progesterona e a espera de cerca de dez a doze dias até o beta-hCG. O que acontece nesse período está em depois da transferência.
Quanto tempo tudo isso leva
Da primeira aplicação ao resultado, quatro a seis semanas. A investigação prévia é o que mais varia: pode ser rápida, se você já chegou com exames, ou levar meses, se houver algo a corrigir antes.
Quem congela tudo tem um intervalo adicional até a transferência do embrião congelado, que costuma acontecer no ciclo seguinte ou logo depois.
O funil da FIV
Este é o conceito que mais evita frustração ao longo do tratamento, e o que menos se explica antes de começar.
A FIV tem perda em cada etapa, e a perda é biológica, não falha de execução. A sequência é sempre a mesma:
Etapa | O que acontece |
|---|---|
Folículos vistos no ultrassom | Nem todo folículo contém óvulo |
Óvulos coletados | Nem todo óvulo está maduro |
Óvulos maduros | Só eles podem ser fertilizados |
Óvulos fertilizados | Nem todo fertilizado se divide bem |
Blastocistos no quinto dia | Boa parte para antes disso |
Embriões cromossomicamente normais | Proporção cai com a idade |
Embrião que implanta | Nem todo euploide implanta |
Cada linha estreita a anterior. Um ciclo que começa com doze folículos pode terminar com dois blastocistos, e isso é um ciclo normal, não um ciclo ruim.
Duas consequências práticas. A primeira é que o número de óvulos coletados, sozinho, diz pouco: ele é o topo do funil. A segunda é que a idade age principalmente na penúltima linha, a da normalidade cromossômica, e é por isso que ela pesa tanto no resultado final mesmo quando a coleta foi boa.
Pedir à equipe o resumo do ciclo com esses números, ao fim de cada tentativa, é a informação mais útil que você pode guardar. Ela mostra em que degrau o processo parou, e é o que orienta o que ajustar na vez seguinte.
Quantos ciclos são necessários
Não existe resposta única, e a pergunta certa não é sobre um ciclo isolado.
O que descreve melhor a realidade é a chance acumulada: a probabilidade de gravidez somando as transferências que um ou mais ciclos de coleta produzem. Um ciclo que gerou três blastocistos oferece três oportunidades, e a chance de chegar a uma gestação ao longo delas é bem maior do que a de qualquer transferência isolada.
Por isso vale, antes de começar, entender o plano completo em vez do primeiro passo: quantas transferências os embriões daquele ciclo tendem a permitir, quanto custa cada uma, e em que ponto se reavalia a estratégia. A parte financeira dessa conta está em custo do tratamento.
O que a FIV não resolve
Ela contorna obstáculos mecânicos e de fertilização. Não cria competência onde ela não existe.
A qualidade do óvulo. É determinada sobretudo pela idade, e nenhuma técnica de laboratório a melhora. É a razão de a ovodoação existir como caminho quando os próprios óvulos deixam de ser viáveis.
A aneuploidia. Erros cromossômicos ocorrem na formação do óvulo e aumentam com a idade. O teste genético identifica esses embriões; não os corrige nem cria embriões normais onde não há.
O útero, quando há alteração relevante. Achados que comprometem a cavidade precisam ser tratados antes, e a FIV não os contorna.
Fator masculino de origem genética. A técnica permite a gravidez, mas pode transmitir a condição, o que torna a investigação genética prévia importante em casos selecionados.
Dizer isso não é pessimismo. É o que permite decidir com informação, inclusive sobre quando mudar de estratégia em vez de repetir a mesma.
Como se preparar nas semanas anteriores
O que tem efeito demonstrado é modesto em número e consistente.
Parar de fumar, para os dois. É a medida isolada com efeito mais consistente sobre fertilidade e sobre resultado de tratamento.
Ajustar o peso, quando está muito fora da faixa saudável, nos dois extremos. Interfere na resposta ao estímulo e na gestação.
Reduzir álcool e revisar medicamentos e suplementos em uso com a equipe.
Ácido fólico no período periconcepcional, pela prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural, que é recomendação estabelecida para qualquer gestação.
Controlar condições clínicas já conhecidas, como tireoide e diabetes.
O que não tem sustentação é a lista longa de suplementos, dietas específicas e protocolos "de imunidade" que circulam em grupos de pacientes. Antes de acrescentar qualquer coisa, pergunte à equipe o que aquilo muda. A conversa sobre o que tem e o que não tem evidência está em estilo de vida e fertilidade.
Os riscos
Síndrome de hiperestimulação ovariana. É a complicação clássica da estimulação e a que mais mudou nos últimos anos. Protocolos atuais reduziram bastante sua ocorrência grave. Os detalhes, os sinais de alerta e a prevenção estão em síndrome de hiperestimulação.
Gestação múltipla. É o principal risco evitável da FIV, e se evita transferindo um embrião. Gêmeos aumentam risco de prematuridade, baixo peso e complicações maternas. A Resolução CFM 2.320/2022 limita o número de embriões por faixa etária, mas o limite legal não é a meta: é o teto.
Riscos do procedimento. A punção é um procedimento invasivo, com riscos pequenos de sangramento e infecção, e a sedação tem os riscos de qualquer sedação.
Impacto emocional. Não entra em lista de complicações e é o que mais pesa em muitas pacientes. A espera, a incerteza e a possibilidade de um ciclo negativo depois de meses de preparo são parte real do tratamento.
O que determina o resultado
A idade da mulher no momento da coleta é, isolada, o fator mais determinante. Ela influencia a quantidade de óvulos e, sobretudo, a proporção de embriões cromossomicamente normais.
Depois dela vêm a reserva ovariana, a causa da infertilidade, a receptividade do endométrio e o histórico de tentativas anteriores.
O que não determina resultado, apesar de muito se falar: repouso absoluto após a transferência, posição para dormir, alimentação específica nos dias seguintes. Nada disso mostrou efeito.
Sobre números: desconfie de qualquer taxa apresentada sem denominador e sem faixa etária. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.
Quando um ciclo não dá certo
Acontece, inclusive em ciclos bem conduzidos com embriões de boa aparência. O que se faz depois é investigar em que etapa o processo parou: fertilização, desenvolvimento embrionário ou implantação. Cada uma aponta para um lado diferente, e o caminho está em quando a FIV não dá certo.
Se houver embrião congelado, a próxima tentativa não é um ciclo novo: é uma transferência, mais simples e mais barata.
Quando procurar avaliação
Um ano de tentativas sem gravidez, ou seis meses se a mulher tem mais de 35 anos. Antes disso, diante de ciclos muito irregulares, endometriose conhecida, cirurgia pélvica prévia, tratamento oncológico, alteração no espermograma ou perdas gestacionais de repetição.
A avaliação de fertilidade é o ponto de partida, e ela não compromete você com nenhum tratamento. Uma parte relevante dos casais que chega a um serviço de reprodução não faz FIV.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura um ciclo de FIV?
Da primeira aplicação da medicação até o resultado do beta-hCG passam-se cerca de quatro a seis semanas. Antes disso existe a fase de investigação e preparo, que varia de algumas semanas a alguns meses conforme o que os exames encontrarem. Nos ciclos em que todos os embriões são congelados, a transferência acontece em um ciclo seguinte.
A FIV dói?
A punção para coleta dos óvulos é feita sob sedação, então não há dor durante o procedimento. Depois é comum sentir cólica e desconforto abdominal por um a dois dias. As aplicações da medicação são subcutâneas, com agulha fina, e a maior parte das pacientes as descreve como incômodas, não dolorosas. A transferência do embrião costuma dispensar anestesia.
Quantos óvulos são necessários?
Não existe número ideal universal. Nem todo folículo contém óvulo, nem todo óvulo está maduro, nem todo óvulo maduro fertiliza e nem todo fertilizado chega a blastocisto. Essa perda em cada etapa é esperada, e é por isso que se estimula os ovários em vez de trabalhar com o óvulo único do ciclo natural.
Quantos embriões podem ser transferidos?
A Resolução CFM 2.320/2022 permite até dois embriões em mulheres com até 37 anos e até três acima dessa idade. Quando há teste genético e o embrião é euploide, o limite é de dois independentemente da idade. Na prática, a tendência é transferir um só, porque gestação múltipla é o principal risco evitável da FIV.
A estimulação acaba com a minha reserva ovariana?
Não. A cada ciclo menstrual um grupo de folículos inicia o desenvolvimento e apenas um segue adiante; os demais se perdem naturalmente. A estimulação resgata parte desse grupo que se perderia de qualquer forma. Ela não antecipa a menopausa nem consome folículos futuros.
Qual a chance de dar certo?
Depende sobretudo da idade da mulher no momento da coleta dos óvulos, e também da reserva ovariana, da causa da infertilidade e do histórico de tentativas. Registros públicos como o SisEmbrio, da ANVISA, e os relatórios da ESHRE publicam resultados por faixa etária. Número anunciado sem denominador nem faixa de idade não significa nada.
Fontes
ANVISA — SisEmbrio, Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões
ESHRE — ART in Europe, relatórios anuais do EIM Consortium
A FIV é o tratamento em que a fertilização acontece no laboratório, fora do corpo. Um ciclo tem cinco etapas: estimulação dos ovários por cerca de dez dias, coleta dos óvulos por punção, fertilização e cultivo dos embriões por até seis dias, transferência de um embrião ao útero e suporte hormonal até o teste de gravidez. Do início da medicação ao resultado passam-se em torno de quatro a seis semanas.
O que a FIV faz, em uma frase
Ela tira do corpo as etapas que dependem do encontro entre óvulo e espermatozoide e as executa em condições controladas. Óvulos são coletados diretamente do ovário, fertilizados no laboratório, e o embrião é colocado dentro do útero já formado.
Isso contorna vários obstáculos de uma vez: tubas comprometidas, alterações do sêmen, dificuldade de ovulação, ambiente pélvico inflamado. É o motivo de a FIV ser o tratamento de reprodução assistida com maior chance por tentativa.
O que ela não faz é criar qualidade onde ela não existe. A FIV usa os óvulos que você tem, com a competência que eles têm. Voltamos a isso no fim.
Para quem a FIV é indicada
As indicações mais frequentes:
obstrução ou ausência das tubas uterinas;
fator masculino relevante, inclusive azoospermia com recuperação cirúrgica;
endometriose, sobretudo em graus mais avançados;
idade materna mais avançada, quando o tempo pesa contra tratamentos mais lentos;
falha de tratamentos de baixa complexidade, como coito programado e inseminação;
infertilidade sem causa aparente após investigação completa;
necessidade de teste genético do embrião;
casais de mulheres, mulheres solteiras e demais configurações familiares que dependem de gametas de doador.
Ela também não é indicada em algumas situações, e isso se diz menos. Quando existe um fator corrigível — um distúrbio de ovulação tratável, um achado uterino operável, um problema hormonal — resolver a causa costuma ser melhor do que contorná-la.
As etapas de um ciclo
1. Preparo e investigação
Antes de qualquer medicação, o casal completa a investigação: reserva ovariana, avaliação uterina, sorologias e exames obrigatórios, espermograma. É nessa fase que se define o protocolo e a dose.
2. Estimulação ovariana
Cerca de dez dias de aplicações subcutâneas diárias de gonadotrofinas, com um segundo medicamento para impedir a ovulação espontânea no meio do caminho. O objetivo é fazer crescer, no mesmo ciclo, o grupo de folículos que naturalmente se perderia.
O acompanhamento é por ultrassom seriado e dosagens hormonais, a cada dois ou três dias. Quando os folículos atingem o tamanho adequado, aplica-se o gatilho, que dispara a maturação final. A estimulação ovariana tem um texto próprio, assim como as medicações usadas.
3. Coleta dos óvulos
Cerca de 34 a 36 horas depois do gatilho, a punção folicular é feita sob sedação, por via transvaginal, guiada por ultrassom. Dura em torno de vinte minutos. A paciente vai para casa no mesmo dia, com acompanhante.
No mesmo dia é colhida a amostra de sêmen, ou recuperado o material previamente congelado.
4. Laboratório
Os óvulos são avaliados quanto à maturidade, e só os maduros são usados. A fertilização acontece por FIV clássica ou por ICSI, conforme o caso.
No dia seguinte se confirma a fertilização. Nos dias que seguem, os embriões são cultivados em incubadora até o quinto ou sexto dia, quando alcançam o estágio de blastocisto. Nem todos chegam lá, e essa perda é biológica, não erro de laboratório. O caminho está descrito em desenvolvimento embrionário.
5. Transferência
A transferência é rápida, feita com um cateter fino guiado por ultrassom, sem necessidade de anestesia na maioria das vezes. Costuma-se transferir um embrião.
Em parte dos ciclos, nenhum embrião é transferido naquele momento: todos são vitrificados e a transferência acontece em um ciclo posterior. É a estratégia freeze-all, e ela tem indicações próprias.
6. Espera e resultado
Depois da transferência vem o suporte de progesterona e a espera de cerca de dez a doze dias até o beta-hCG. O que acontece nesse período está em depois da transferência.
Quanto tempo tudo isso leva
Da primeira aplicação ao resultado, quatro a seis semanas. A investigação prévia é o que mais varia: pode ser rápida, se você já chegou com exames, ou levar meses, se houver algo a corrigir antes.
Quem congela tudo tem um intervalo adicional até a transferência do embrião congelado, que costuma acontecer no ciclo seguinte ou logo depois.
O funil da FIV
Este é o conceito que mais evita frustração ao longo do tratamento, e o que menos se explica antes de começar.
A FIV tem perda em cada etapa, e a perda é biológica, não falha de execução. A sequência é sempre a mesma:
Etapa | O que acontece |
|---|---|
Folículos vistos no ultrassom | Nem todo folículo contém óvulo |
Óvulos coletados | Nem todo óvulo está maduro |
Óvulos maduros | Só eles podem ser fertilizados |
Óvulos fertilizados | Nem todo fertilizado se divide bem |
Blastocistos no quinto dia | Boa parte para antes disso |
Embriões cromossomicamente normais | Proporção cai com a idade |
Embrião que implanta | Nem todo euploide implanta |
Cada linha estreita a anterior. Um ciclo que começa com doze folículos pode terminar com dois blastocistos, e isso é um ciclo normal, não um ciclo ruim.
Duas consequências práticas. A primeira é que o número de óvulos coletados, sozinho, diz pouco: ele é o topo do funil. A segunda é que a idade age principalmente na penúltima linha, a da normalidade cromossômica, e é por isso que ela pesa tanto no resultado final mesmo quando a coleta foi boa.
Pedir à equipe o resumo do ciclo com esses números, ao fim de cada tentativa, é a informação mais útil que você pode guardar. Ela mostra em que degrau o processo parou, e é o que orienta o que ajustar na vez seguinte.
Quantos ciclos são necessários
Não existe resposta única, e a pergunta certa não é sobre um ciclo isolado.
O que descreve melhor a realidade é a chance acumulada: a probabilidade de gravidez somando as transferências que um ou mais ciclos de coleta produzem. Um ciclo que gerou três blastocistos oferece três oportunidades, e a chance de chegar a uma gestação ao longo delas é bem maior do que a de qualquer transferência isolada.
Por isso vale, antes de começar, entender o plano completo em vez do primeiro passo: quantas transferências os embriões daquele ciclo tendem a permitir, quanto custa cada uma, e em que ponto se reavalia a estratégia. A parte financeira dessa conta está em custo do tratamento.
O que a FIV não resolve
Ela contorna obstáculos mecânicos e de fertilização. Não cria competência onde ela não existe.
A qualidade do óvulo. É determinada sobretudo pela idade, e nenhuma técnica de laboratório a melhora. É a razão de a ovodoação existir como caminho quando os próprios óvulos deixam de ser viáveis.
A aneuploidia. Erros cromossômicos ocorrem na formação do óvulo e aumentam com a idade. O teste genético identifica esses embriões; não os corrige nem cria embriões normais onde não há.
O útero, quando há alteração relevante. Achados que comprometem a cavidade precisam ser tratados antes, e a FIV não os contorna.
Fator masculino de origem genética. A técnica permite a gravidez, mas pode transmitir a condição, o que torna a investigação genética prévia importante em casos selecionados.
Dizer isso não é pessimismo. É o que permite decidir com informação, inclusive sobre quando mudar de estratégia em vez de repetir a mesma.
Como se preparar nas semanas anteriores
O que tem efeito demonstrado é modesto em número e consistente.
Parar de fumar, para os dois. É a medida isolada com efeito mais consistente sobre fertilidade e sobre resultado de tratamento.
Ajustar o peso, quando está muito fora da faixa saudável, nos dois extremos. Interfere na resposta ao estímulo e na gestação.
Reduzir álcool e revisar medicamentos e suplementos em uso com a equipe.
Ácido fólico no período periconcepcional, pela prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural, que é recomendação estabelecida para qualquer gestação.
Controlar condições clínicas já conhecidas, como tireoide e diabetes.
O que não tem sustentação é a lista longa de suplementos, dietas específicas e protocolos "de imunidade" que circulam em grupos de pacientes. Antes de acrescentar qualquer coisa, pergunte à equipe o que aquilo muda. A conversa sobre o que tem e o que não tem evidência está em estilo de vida e fertilidade.
Os riscos
Síndrome de hiperestimulação ovariana. É a complicação clássica da estimulação e a que mais mudou nos últimos anos. Protocolos atuais reduziram bastante sua ocorrência grave. Os detalhes, os sinais de alerta e a prevenção estão em síndrome de hiperestimulação.
Gestação múltipla. É o principal risco evitável da FIV, e se evita transferindo um embrião. Gêmeos aumentam risco de prematuridade, baixo peso e complicações maternas. A Resolução CFM 2.320/2022 limita o número de embriões por faixa etária, mas o limite legal não é a meta: é o teto.
Riscos do procedimento. A punção é um procedimento invasivo, com riscos pequenos de sangramento e infecção, e a sedação tem os riscos de qualquer sedação.
Impacto emocional. Não entra em lista de complicações e é o que mais pesa em muitas pacientes. A espera, a incerteza e a possibilidade de um ciclo negativo depois de meses de preparo são parte real do tratamento.
O que determina o resultado
A idade da mulher no momento da coleta é, isolada, o fator mais determinante. Ela influencia a quantidade de óvulos e, sobretudo, a proporção de embriões cromossomicamente normais.
Depois dela vêm a reserva ovariana, a causa da infertilidade, a receptividade do endométrio e o histórico de tentativas anteriores.
O que não determina resultado, apesar de muito se falar: repouso absoluto após a transferência, posição para dormir, alimentação específica nos dias seguintes. Nada disso mostrou efeito.
Sobre números: desconfie de qualquer taxa apresentada sem denominador e sem faixa etária. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.
Quando um ciclo não dá certo
Acontece, inclusive em ciclos bem conduzidos com embriões de boa aparência. O que se faz depois é investigar em que etapa o processo parou: fertilização, desenvolvimento embrionário ou implantação. Cada uma aponta para um lado diferente, e o caminho está em quando a FIV não dá certo.
Se houver embrião congelado, a próxima tentativa não é um ciclo novo: é uma transferência, mais simples e mais barata.
Quando procurar avaliação
Um ano de tentativas sem gravidez, ou seis meses se a mulher tem mais de 35 anos. Antes disso, diante de ciclos muito irregulares, endometriose conhecida, cirurgia pélvica prévia, tratamento oncológico, alteração no espermograma ou perdas gestacionais de repetição.
A avaliação de fertilidade é o ponto de partida, e ela não compromete você com nenhum tratamento. Uma parte relevante dos casais que chega a um serviço de reprodução não faz FIV.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura um ciclo de FIV?
Da primeira aplicação da medicação até o resultado do beta-hCG passam-se cerca de quatro a seis semanas. Antes disso existe a fase de investigação e preparo, que varia de algumas semanas a alguns meses conforme o que os exames encontrarem. Nos ciclos em que todos os embriões são congelados, a transferência acontece em um ciclo seguinte.
A FIV dói?
A punção para coleta dos óvulos é feita sob sedação, então não há dor durante o procedimento. Depois é comum sentir cólica e desconforto abdominal por um a dois dias. As aplicações da medicação são subcutâneas, com agulha fina, e a maior parte das pacientes as descreve como incômodas, não dolorosas. A transferência do embrião costuma dispensar anestesia.
Quantos óvulos são necessários?
Não existe número ideal universal. Nem todo folículo contém óvulo, nem todo óvulo está maduro, nem todo óvulo maduro fertiliza e nem todo fertilizado chega a blastocisto. Essa perda em cada etapa é esperada, e é por isso que se estimula os ovários em vez de trabalhar com o óvulo único do ciclo natural.
Quantos embriões podem ser transferidos?
A Resolução CFM 2.320/2022 permite até dois embriões em mulheres com até 37 anos e até três acima dessa idade. Quando há teste genético e o embrião é euploide, o limite é de dois independentemente da idade. Na prática, a tendência é transferir um só, porque gestação múltipla é o principal risco evitável da FIV.
A estimulação acaba com a minha reserva ovariana?
Não. A cada ciclo menstrual um grupo de folículos inicia o desenvolvimento e apenas um segue adiante; os demais se perdem naturalmente. A estimulação resgata parte desse grupo que se perderia de qualquer forma. Ela não antecipa a menopausa nem consome folículos futuros.
Qual a chance de dar certo?
Depende sobretudo da idade da mulher no momento da coleta dos óvulos, e também da reserva ovariana, da causa da infertilidade e do histórico de tentativas. Registros públicos como o SisEmbrio, da ANVISA, e os relatórios da ESHRE publicam resultados por faixa etária. Número anunciado sem denominador nem faixa de idade não significa nada.
Fontes
ANVISA — SisEmbrio, Relatório do Sistema Nacional de Produção de Embriões
ESHRE — ART in Europe, relatórios anuais do EIM Consortium
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