FIV

Fertilização in vitro: guia completo do tratamento

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Prof. Dr. Fernando Prado Ferreira

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CRM-SP 103.984 · RQE 391631

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A FIV é o tratamento em que a fertilização acontece no laboratório, fora do corpo. Um ciclo tem cinco etapas: estimulação dos ovários por cerca de dez dias, coleta dos óvulos por punção, fertilização e cultivo dos embriões por até seis dias, transferência de um embrião ao útero e suporte hormonal até o teste de gravidez. Do início da medicação ao resultado passam-se em torno de quatro a seis semanas.

O que a FIV faz, em uma frase

Ela tira do corpo as etapas que dependem do encontro entre óvulo e espermatozoide e as executa em condições controladas. Óvulos são coletados diretamente do ovário, fertilizados no laboratório, e o embrião é colocado dentro do útero já formado.

Isso contorna vários obstáculos de uma vez: tubas comprometidas, alterações do sêmen, dificuldade de ovulação, ambiente pélvico inflamado. É o motivo de a FIV ser o tratamento de reprodução assistida com maior chance por tentativa.

O que ela não faz é criar qualidade onde ela não existe. A FIV usa os óvulos que você tem, com a competência que eles têm. Voltamos a isso no fim.

Para quem a FIV é indicada

As indicações mais frequentes:

  • obstrução ou ausência das tubas uterinas;

  • fator masculino relevante, inclusive azoospermia com recuperação cirúrgica;

  • endometriose, sobretudo em graus mais avançados;

  • idade materna mais avançada, quando o tempo pesa contra tratamentos mais lentos;

  • falha de tratamentos de baixa complexidade, como coito programado e inseminação;

  • infertilidade sem causa aparente após investigação completa;

  • necessidade de teste genético do embrião;

  • casais de mulheres, mulheres solteiras e demais configurações familiares que dependem de gametas de doador.

Ela também não é indicada em algumas situações, e isso se diz menos. Quando existe um fator corrigível — um distúrbio de ovulação tratável, um achado uterino operável, um problema hormonal — resolver a causa costuma ser melhor do que contorná-la.

As etapas de um ciclo

1. Preparo e investigação

Antes de qualquer medicação, o casal completa a investigação: reserva ovariana, avaliação uterina, sorologias e exames obrigatórios, espermograma. É nessa fase que se define o protocolo e a dose.

2. Estimulação ovariana

Cerca de dez dias de aplicações subcutâneas diárias de gonadotrofinas, com um segundo medicamento para impedir a ovulação espontânea no meio do caminho. O objetivo é fazer crescer, no mesmo ciclo, o grupo de folículos que naturalmente se perderia.

O acompanhamento é por ultrassom seriado e dosagens hormonais, a cada dois ou três dias. Quando os folículos atingem o tamanho adequado, aplica-se o gatilho, que dispara a maturação final. A estimulação ovariana tem um texto próprio, assim como as medicações usadas.

3. Coleta dos óvulos

Cerca de 34 a 36 horas depois do gatilho, a punção folicular é feita sob sedação, por via transvaginal, guiada por ultrassom. Dura em torno de vinte minutos. A paciente vai para casa no mesmo dia, com acompanhante.

No mesmo dia é colhida a amostra de sêmen, ou recuperado o material previamente congelado.

4. Laboratório

Os óvulos são avaliados quanto à maturidade, e só os maduros são usados. A fertilização acontece por FIV clássica ou por ICSI, conforme o caso.

No dia seguinte se confirma a fertilização. Nos dias que seguem, os embriões são cultivados em incubadora até o quinto ou sexto dia, quando alcançam o estágio de blastocisto. Nem todos chegam lá, e essa perda é biológica, não erro de laboratório. O caminho está descrito em desenvolvimento embrionário.

5. Transferência

A transferência é rápida, feita com um cateter fino guiado por ultrassom, sem necessidade de anestesia na maioria das vezes. Costuma-se transferir um embrião.

Em parte dos ciclos, nenhum embrião é transferido naquele momento: todos são vitrificados e a transferência acontece em um ciclo posterior. É a estratégia freeze-all, e ela tem indicações próprias.

6. Espera e resultado

Depois da transferência vem o suporte de progesterona e a espera de cerca de dez a doze dias até o beta-hCG. O que acontece nesse período está em depois da transferência.

Quanto tempo tudo isso leva

Da primeira aplicação ao resultado, quatro a seis semanas. A investigação prévia é o que mais varia: pode ser rápida, se você já chegou com exames, ou levar meses, se houver algo a corrigir antes.

Quem congela tudo tem um intervalo adicional até a transferência do embrião congelado, que costuma acontecer no ciclo seguinte ou logo depois.

O funil da FIV

Este é o conceito que mais evita frustração ao longo do tratamento, e o que menos se explica antes de começar.

A FIV tem perda em cada etapa, e a perda é biológica, não falha de execução. A sequência é sempre a mesma:

Etapa

O que acontece

Folículos vistos no ultrassom

Nem todo folículo contém óvulo

Óvulos coletados

Nem todo óvulo está maduro

Óvulos maduros

Só eles podem ser fertilizados

Óvulos fertilizados

Nem todo fertilizado se divide bem

Blastocistos no quinto dia

Boa parte para antes disso

Embriões cromossomicamente normais

Proporção cai com a idade

Embrião que implanta

Nem todo euploide implanta

Cada linha estreita a anterior. Um ciclo que começa com doze folículos pode terminar com dois blastocistos, e isso é um ciclo normal, não um ciclo ruim.

Duas consequências práticas. A primeira é que o número de óvulos coletados, sozinho, diz pouco: ele é o topo do funil. A segunda é que a idade age principalmente na penúltima linha, a da normalidade cromossômica, e é por isso que ela pesa tanto no resultado final mesmo quando a coleta foi boa.

Pedir à equipe o resumo do ciclo com esses números, ao fim de cada tentativa, é a informação mais útil que você pode guardar. Ela mostra em que degrau o processo parou, e é o que orienta o que ajustar na vez seguinte.

Quantos ciclos são necessários

Não existe resposta única, e a pergunta certa não é sobre um ciclo isolado.

O que descreve melhor a realidade é a chance acumulada: a probabilidade de gravidez somando as transferências que um ou mais ciclos de coleta produzem. Um ciclo que gerou três blastocistos oferece três oportunidades, e a chance de chegar a uma gestação ao longo delas é bem maior do que a de qualquer transferência isolada.

Por isso vale, antes de começar, entender o plano completo em vez do primeiro passo: quantas transferências os embriões daquele ciclo tendem a permitir, quanto custa cada uma, e em que ponto se reavalia a estratégia. A parte financeira dessa conta está em custo do tratamento.

O que a FIV não resolve

Ela contorna obstáculos mecânicos e de fertilização. Não cria competência onde ela não existe.

A qualidade do óvulo. É determinada sobretudo pela idade, e nenhuma técnica de laboratório a melhora. É a razão de a ovodoação existir como caminho quando os próprios óvulos deixam de ser viáveis.

A aneuploidia. Erros cromossômicos ocorrem na formação do óvulo e aumentam com a idade. O teste genético identifica esses embriões; não os corrige nem cria embriões normais onde não há.

O útero, quando há alteração relevante. Achados que comprometem a cavidade precisam ser tratados antes, e a FIV não os contorna.

Fator masculino de origem genética. A técnica permite a gravidez, mas pode transmitir a condição, o que torna a investigação genética prévia importante em casos selecionados.

Dizer isso não é pessimismo. É o que permite decidir com informação, inclusive sobre quando mudar de estratégia em vez de repetir a mesma.

Como se preparar nas semanas anteriores

O que tem efeito demonstrado é modesto em número e consistente.

Parar de fumar, para os dois. É a medida isolada com efeito mais consistente sobre fertilidade e sobre resultado de tratamento.

Ajustar o peso, quando está muito fora da faixa saudável, nos dois extremos. Interfere na resposta ao estímulo e na gestação.

Reduzir álcool e revisar medicamentos e suplementos em uso com a equipe.

Ácido fólico no período periconcepcional, pela prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural, que é recomendação estabelecida para qualquer gestação.

Controlar condições clínicas já conhecidas, como tireoide e diabetes.

O que não tem sustentação é a lista longa de suplementos, dietas específicas e protocolos "de imunidade" que circulam em grupos de pacientes. Antes de acrescentar qualquer coisa, pergunte à equipe o que aquilo muda. A conversa sobre o que tem e o que não tem evidência está em estilo de vida e fertilidade.

Os riscos

Síndrome de hiperestimulação ovariana. É a complicação clássica da estimulação e a que mais mudou nos últimos anos. Protocolos atuais reduziram bastante sua ocorrência grave. Os detalhes, os sinais de alerta e a prevenção estão em síndrome de hiperestimulação.

Gestação múltipla. É o principal risco evitável da FIV, e se evita transferindo um embrião. Gêmeos aumentam risco de prematuridade, baixo peso e complicações maternas. A Resolução CFM 2.320/2022 limita o número de embriões por faixa etária, mas o limite legal não é a meta: é o teto.

Riscos do procedimento. A punção é um procedimento invasivo, com riscos pequenos de sangramento e infecção, e a sedação tem os riscos de qualquer sedação.

Impacto emocional. Não entra em lista de complicações e é o que mais pesa em muitas pacientes. A espera, a incerteza e a possibilidade de um ciclo negativo depois de meses de preparo são parte real do tratamento.

O que determina o resultado

A idade da mulher no momento da coleta é, isolada, o fator mais determinante. Ela influencia a quantidade de óvulos e, sobretudo, a proporção de embriões cromossomicamente normais.

Depois dela vêm a reserva ovariana, a causa da infertilidade, a receptividade do endométrio e o histórico de tentativas anteriores.

O que não determina resultado, apesar de muito se falar: repouso absoluto após a transferência, posição para dormir, alimentação específica nos dias seguintes. Nada disso mostrou efeito.

Sobre números: desconfie de qualquer taxa apresentada sem denominador e sem faixa etária. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.

Quando um ciclo não dá certo

Acontece, inclusive em ciclos bem conduzidos com embriões de boa aparência. O que se faz depois é investigar em que etapa o processo parou: fertilização, desenvolvimento embrionário ou implantação. Cada uma aponta para um lado diferente, e o caminho está em quando a FIV não dá certo.

Se houver embrião congelado, a próxima tentativa não é um ciclo novo: é uma transferência, mais simples e mais barata.

Quando procurar avaliação

Um ano de tentativas sem gravidez, ou seis meses se a mulher tem mais de 35 anos. Antes disso, diante de ciclos muito irregulares, endometriose conhecida, cirurgia pélvica prévia, tratamento oncológico, alteração no espermograma ou perdas gestacionais de repetição.

A avaliação de fertilidade é o ponto de partida, e ela não compromete você com nenhum tratamento. Uma parte relevante dos casais que chega a um serviço de reprodução não faz FIV.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura um ciclo de FIV?

Da primeira aplicação da medicação até o resultado do beta-hCG passam-se cerca de quatro a seis semanas. Antes disso existe a fase de investigação e preparo, que varia de algumas semanas a alguns meses conforme o que os exames encontrarem. Nos ciclos em que todos os embriões são congelados, a transferência acontece em um ciclo seguinte.

A FIV dói?

A punção para coleta dos óvulos é feita sob sedação, então não há dor durante o procedimento. Depois é comum sentir cólica e desconforto abdominal por um a dois dias. As aplicações da medicação são subcutâneas, com agulha fina, e a maior parte das pacientes as descreve como incômodas, não dolorosas. A transferência do embrião costuma dispensar anestesia.

Quantos óvulos são necessários?

Não existe número ideal universal. Nem todo folículo contém óvulo, nem todo óvulo está maduro, nem todo óvulo maduro fertiliza e nem todo fertilizado chega a blastocisto. Essa perda em cada etapa é esperada, e é por isso que se estimula os ovários em vez de trabalhar com o óvulo único do ciclo natural.

Quantos embriões podem ser transferidos?

A Resolução CFM 2.320/2022 permite até dois embriões em mulheres com até 37 anos e até três acima dessa idade. Quando há teste genético e o embrião é euploide, o limite é de dois independentemente da idade. Na prática, a tendência é transferir um só, porque gestação múltipla é o principal risco evitável da FIV.

A estimulação acaba com a minha reserva ovariana?

Não. A cada ciclo menstrual um grupo de folículos inicia o desenvolvimento e apenas um segue adiante; os demais se perdem naturalmente. A estimulação resgata parte desse grupo que se perderia de qualquer forma. Ela não antecipa a menopausa nem consome folículos futuros.

Qual a chance de dar certo?

Depende sobretudo da idade da mulher no momento da coleta dos óvulos, e também da reserva ovariana, da causa da infertilidade e do histórico de tentativas. Registros públicos como o SisEmbrio, da ANVISA, e os relatórios da ESHRE publicam resultados por faixa etária. Número anunciado sem denominador nem faixa de idade não significa nada.

Fontes

A FIV é o tratamento em que a fertilização acontece no laboratório, fora do corpo. Um ciclo tem cinco etapas: estimulação dos ovários por cerca de dez dias, coleta dos óvulos por punção, fertilização e cultivo dos embriões por até seis dias, transferência de um embrião ao útero e suporte hormonal até o teste de gravidez. Do início da medicação ao resultado passam-se em torno de quatro a seis semanas.

O que a FIV faz, em uma frase

Ela tira do corpo as etapas que dependem do encontro entre óvulo e espermatozoide e as executa em condições controladas. Óvulos são coletados diretamente do ovário, fertilizados no laboratório, e o embrião é colocado dentro do útero já formado.

Isso contorna vários obstáculos de uma vez: tubas comprometidas, alterações do sêmen, dificuldade de ovulação, ambiente pélvico inflamado. É o motivo de a FIV ser o tratamento de reprodução assistida com maior chance por tentativa.

O que ela não faz é criar qualidade onde ela não existe. A FIV usa os óvulos que você tem, com a competência que eles têm. Voltamos a isso no fim.

Para quem a FIV é indicada

As indicações mais frequentes:

  • obstrução ou ausência das tubas uterinas;

  • fator masculino relevante, inclusive azoospermia com recuperação cirúrgica;

  • endometriose, sobretudo em graus mais avançados;

  • idade materna mais avançada, quando o tempo pesa contra tratamentos mais lentos;

  • falha de tratamentos de baixa complexidade, como coito programado e inseminação;

  • infertilidade sem causa aparente após investigação completa;

  • necessidade de teste genético do embrião;

  • casais de mulheres, mulheres solteiras e demais configurações familiares que dependem de gametas de doador.

Ela também não é indicada em algumas situações, e isso se diz menos. Quando existe um fator corrigível — um distúrbio de ovulação tratável, um achado uterino operável, um problema hormonal — resolver a causa costuma ser melhor do que contorná-la.

As etapas de um ciclo

1. Preparo e investigação

Antes de qualquer medicação, o casal completa a investigação: reserva ovariana, avaliação uterina, sorologias e exames obrigatórios, espermograma. É nessa fase que se define o protocolo e a dose.

2. Estimulação ovariana

Cerca de dez dias de aplicações subcutâneas diárias de gonadotrofinas, com um segundo medicamento para impedir a ovulação espontânea no meio do caminho. O objetivo é fazer crescer, no mesmo ciclo, o grupo de folículos que naturalmente se perderia.

O acompanhamento é por ultrassom seriado e dosagens hormonais, a cada dois ou três dias. Quando os folículos atingem o tamanho adequado, aplica-se o gatilho, que dispara a maturação final. A estimulação ovariana tem um texto próprio, assim como as medicações usadas.

3. Coleta dos óvulos

Cerca de 34 a 36 horas depois do gatilho, a punção folicular é feita sob sedação, por via transvaginal, guiada por ultrassom. Dura em torno de vinte minutos. A paciente vai para casa no mesmo dia, com acompanhante.

No mesmo dia é colhida a amostra de sêmen, ou recuperado o material previamente congelado.

4. Laboratório

Os óvulos são avaliados quanto à maturidade, e só os maduros são usados. A fertilização acontece por FIV clássica ou por ICSI, conforme o caso.

No dia seguinte se confirma a fertilização. Nos dias que seguem, os embriões são cultivados em incubadora até o quinto ou sexto dia, quando alcançam o estágio de blastocisto. Nem todos chegam lá, e essa perda é biológica, não erro de laboratório. O caminho está descrito em desenvolvimento embrionário.

5. Transferência

A transferência é rápida, feita com um cateter fino guiado por ultrassom, sem necessidade de anestesia na maioria das vezes. Costuma-se transferir um embrião.

Em parte dos ciclos, nenhum embrião é transferido naquele momento: todos são vitrificados e a transferência acontece em um ciclo posterior. É a estratégia freeze-all, e ela tem indicações próprias.

6. Espera e resultado

Depois da transferência vem o suporte de progesterona e a espera de cerca de dez a doze dias até o beta-hCG. O que acontece nesse período está em depois da transferência.

Quanto tempo tudo isso leva

Da primeira aplicação ao resultado, quatro a seis semanas. A investigação prévia é o que mais varia: pode ser rápida, se você já chegou com exames, ou levar meses, se houver algo a corrigir antes.

Quem congela tudo tem um intervalo adicional até a transferência do embrião congelado, que costuma acontecer no ciclo seguinte ou logo depois.

O funil da FIV

Este é o conceito que mais evita frustração ao longo do tratamento, e o que menos se explica antes de começar.

A FIV tem perda em cada etapa, e a perda é biológica, não falha de execução. A sequência é sempre a mesma:

Etapa

O que acontece

Folículos vistos no ultrassom

Nem todo folículo contém óvulo

Óvulos coletados

Nem todo óvulo está maduro

Óvulos maduros

Só eles podem ser fertilizados

Óvulos fertilizados

Nem todo fertilizado se divide bem

Blastocistos no quinto dia

Boa parte para antes disso

Embriões cromossomicamente normais

Proporção cai com a idade

Embrião que implanta

Nem todo euploide implanta

Cada linha estreita a anterior. Um ciclo que começa com doze folículos pode terminar com dois blastocistos, e isso é um ciclo normal, não um ciclo ruim.

Duas consequências práticas. A primeira é que o número de óvulos coletados, sozinho, diz pouco: ele é o topo do funil. A segunda é que a idade age principalmente na penúltima linha, a da normalidade cromossômica, e é por isso que ela pesa tanto no resultado final mesmo quando a coleta foi boa.

Pedir à equipe o resumo do ciclo com esses números, ao fim de cada tentativa, é a informação mais útil que você pode guardar. Ela mostra em que degrau o processo parou, e é o que orienta o que ajustar na vez seguinte.

Quantos ciclos são necessários

Não existe resposta única, e a pergunta certa não é sobre um ciclo isolado.

O que descreve melhor a realidade é a chance acumulada: a probabilidade de gravidez somando as transferências que um ou mais ciclos de coleta produzem. Um ciclo que gerou três blastocistos oferece três oportunidades, e a chance de chegar a uma gestação ao longo delas é bem maior do que a de qualquer transferência isolada.

Por isso vale, antes de começar, entender o plano completo em vez do primeiro passo: quantas transferências os embriões daquele ciclo tendem a permitir, quanto custa cada uma, e em que ponto se reavalia a estratégia. A parte financeira dessa conta está em custo do tratamento.

O que a FIV não resolve

Ela contorna obstáculos mecânicos e de fertilização. Não cria competência onde ela não existe.

A qualidade do óvulo. É determinada sobretudo pela idade, e nenhuma técnica de laboratório a melhora. É a razão de a ovodoação existir como caminho quando os próprios óvulos deixam de ser viáveis.

A aneuploidia. Erros cromossômicos ocorrem na formação do óvulo e aumentam com a idade. O teste genético identifica esses embriões; não os corrige nem cria embriões normais onde não há.

O útero, quando há alteração relevante. Achados que comprometem a cavidade precisam ser tratados antes, e a FIV não os contorna.

Fator masculino de origem genética. A técnica permite a gravidez, mas pode transmitir a condição, o que torna a investigação genética prévia importante em casos selecionados.

Dizer isso não é pessimismo. É o que permite decidir com informação, inclusive sobre quando mudar de estratégia em vez de repetir a mesma.

Como se preparar nas semanas anteriores

O que tem efeito demonstrado é modesto em número e consistente.

Parar de fumar, para os dois. É a medida isolada com efeito mais consistente sobre fertilidade e sobre resultado de tratamento.

Ajustar o peso, quando está muito fora da faixa saudável, nos dois extremos. Interfere na resposta ao estímulo e na gestação.

Reduzir álcool e revisar medicamentos e suplementos em uso com a equipe.

Ácido fólico no período periconcepcional, pela prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural, que é recomendação estabelecida para qualquer gestação.

Controlar condições clínicas já conhecidas, como tireoide e diabetes.

O que não tem sustentação é a lista longa de suplementos, dietas específicas e protocolos "de imunidade" que circulam em grupos de pacientes. Antes de acrescentar qualquer coisa, pergunte à equipe o que aquilo muda. A conversa sobre o que tem e o que não tem evidência está em estilo de vida e fertilidade.

Os riscos

Síndrome de hiperestimulação ovariana. É a complicação clássica da estimulação e a que mais mudou nos últimos anos. Protocolos atuais reduziram bastante sua ocorrência grave. Os detalhes, os sinais de alerta e a prevenção estão em síndrome de hiperestimulação.

Gestação múltipla. É o principal risco evitável da FIV, e se evita transferindo um embrião. Gêmeos aumentam risco de prematuridade, baixo peso e complicações maternas. A Resolução CFM 2.320/2022 limita o número de embriões por faixa etária, mas o limite legal não é a meta: é o teto.

Riscos do procedimento. A punção é um procedimento invasivo, com riscos pequenos de sangramento e infecção, e a sedação tem os riscos de qualquer sedação.

Impacto emocional. Não entra em lista de complicações e é o que mais pesa em muitas pacientes. A espera, a incerteza e a possibilidade de um ciclo negativo depois de meses de preparo são parte real do tratamento.

O que determina o resultado

A idade da mulher no momento da coleta é, isolada, o fator mais determinante. Ela influencia a quantidade de óvulos e, sobretudo, a proporção de embriões cromossomicamente normais.

Depois dela vêm a reserva ovariana, a causa da infertilidade, a receptividade do endométrio e o histórico de tentativas anteriores.

O que não determina resultado, apesar de muito se falar: repouso absoluto após a transferência, posição para dormir, alimentação específica nos dias seguintes. Nada disso mostrou efeito.

Sobre números: desconfie de qualquer taxa apresentada sem denominador e sem faixa etária. O porquê está em como ler a taxa de sucesso.

Quando um ciclo não dá certo

Acontece, inclusive em ciclos bem conduzidos com embriões de boa aparência. O que se faz depois é investigar em que etapa o processo parou: fertilização, desenvolvimento embrionário ou implantação. Cada uma aponta para um lado diferente, e o caminho está em quando a FIV não dá certo.

Se houver embrião congelado, a próxima tentativa não é um ciclo novo: é uma transferência, mais simples e mais barata.

Quando procurar avaliação

Um ano de tentativas sem gravidez, ou seis meses se a mulher tem mais de 35 anos. Antes disso, diante de ciclos muito irregulares, endometriose conhecida, cirurgia pélvica prévia, tratamento oncológico, alteração no espermograma ou perdas gestacionais de repetição.

A avaliação de fertilidade é o ponto de partida, e ela não compromete você com nenhum tratamento. Uma parte relevante dos casais que chega a um serviço de reprodução não faz FIV.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura um ciclo de FIV?

Da primeira aplicação da medicação até o resultado do beta-hCG passam-se cerca de quatro a seis semanas. Antes disso existe a fase de investigação e preparo, que varia de algumas semanas a alguns meses conforme o que os exames encontrarem. Nos ciclos em que todos os embriões são congelados, a transferência acontece em um ciclo seguinte.

A FIV dói?

A punção para coleta dos óvulos é feita sob sedação, então não há dor durante o procedimento. Depois é comum sentir cólica e desconforto abdominal por um a dois dias. As aplicações da medicação são subcutâneas, com agulha fina, e a maior parte das pacientes as descreve como incômodas, não dolorosas. A transferência do embrião costuma dispensar anestesia.

Quantos óvulos são necessários?

Não existe número ideal universal. Nem todo folículo contém óvulo, nem todo óvulo está maduro, nem todo óvulo maduro fertiliza e nem todo fertilizado chega a blastocisto. Essa perda em cada etapa é esperada, e é por isso que se estimula os ovários em vez de trabalhar com o óvulo único do ciclo natural.

Quantos embriões podem ser transferidos?

A Resolução CFM 2.320/2022 permite até dois embriões em mulheres com até 37 anos e até três acima dessa idade. Quando há teste genético e o embrião é euploide, o limite é de dois independentemente da idade. Na prática, a tendência é transferir um só, porque gestação múltipla é o principal risco evitável da FIV.

A estimulação acaba com a minha reserva ovariana?

Não. A cada ciclo menstrual um grupo de folículos inicia o desenvolvimento e apenas um segue adiante; os demais se perdem naturalmente. A estimulação resgata parte desse grupo que se perderia de qualquer forma. Ela não antecipa a menopausa nem consome folículos futuros.

Qual a chance de dar certo?

Depende sobretudo da idade da mulher no momento da coleta dos óvulos, e também da reserva ovariana, da causa da infertilidade e do histórico de tentativas. Registros públicos como o SisEmbrio, da ANVISA, e os relatórios da ESHRE publicam resultados por faixa etária. Número anunciado sem denominador nem faixa de idade não significa nada.

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