FIV

Oncofertilidade: preservar antes do tratamento do câncer

Oncofertilidade: preservar antes do tratamento do câncer

Oncofertilidade: preservar antes do tratamento do câncer

Dra. Rariane Bernardino Marani

Dra. Rariane Bernardino Marani

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CRM-SP 276.093 · RQE 147.915

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Tratamentos oncológicos podem comprometer a função dos ovários e dos testículos de forma temporária ou definitiva, conforme o agente, a dose e a idade. A preservação é feita antes de iniciar o tratamento: congelamento de óvulos ou embriões na mulher, de sêmen no homem. Um ciclo de coleta costuma levar cerca de duas semanas, e existem estratégias para reduzir esse prazo.

A janela que não volta

Este texto tem uma mensagem central: a conversa sobre preservação precisa acontecer no momento do diagnóstico, antes de iniciar o tratamento.

Depois de começar a quimioterapia ou a radioterapia, a oportunidade pode ter passado. Não existe forma de recuperar depois o que estava disponível antes.

Isso soa óbvio e falha na prática com frequência. No turbilhão de um diagnóstico oncológico, com decisões urgentes e sobrecarga emocional, a fertilidade raramente é o primeiro assunto — e nem sempre é levantada pela equipe.

Se você ou alguém próximo recebeu um diagnóstico e pretende ter filhos no futuro, essa pergunta precisa ser feita explicitamente à equipe oncológica: existe risco para a fertilidade, e há tempo para preservar?

O que compromete a fertilidade

Quimioterapia. O risco varia muito conforme o agente, a dose acumulada e a idade da paciente. Alguns esquemas têm risco elevado de insuficiência ovariana; outros, risco baixo.

Radioterapia. Quando o campo inclui a pelve, o efeito sobre os ovários é direto. Irradiação de corpo inteiro tem risco alto. Radioterapia em outras regiões pode ter efeito indireto conforme a proximidade.

Cirurgia, quando envolve a remoção de ovários, testículos ou estruturas reprodutivas.

Idade. Uma mulher mais jovem, com reserva maior, tolera melhor a agressão gonadal do que uma mulher próxima dos 40. O mesmo tratamento tem consequências diferentes conforme o ponto de partida.

A equipe oncológica pode estimar o risco do protocolo específico, e essa informação é o que orienta a decisão sobre preservar.

As opções na mulher

Congelamento de óvulos. É a opção mais usada. Exige um ciclo de estimulação com cerca de dez dias de medicação e uma coleta sob sedação, descrito em congelamento de óvulos. Mantém a decisão individual.

Congelamento de embriões. Para quem tem parceiro e decide fertilizar antes de congelar. Envolve decisão conjunta e as implicações discutidas em destino dos embriões.

Congelamento de tecido ovariano. Alternativa quando não há tempo para uma estimulação ou em pacientes pré-púberes. É realizada em serviços com experiência específica.

Proteção ovariana durante o tratamento, com medicações que suprimem temporariamente a função ovariana. É estratégia complementar, com evidência menos robusta do que a criopreservação, e não a substitui.

Transposição ovariana, quando o campo de radioterapia inclui a pelve: os ovários são deslocados cirurgicamente para fora da área irradiada.

As opções no homem

Congelamento de sêmen. Simples, rápido e altamente eficaz. A coleta leva minutos, e costuma-se colher mais de uma amostra quando há tempo.

É a intervenção com melhor relação entre facilidade e benefício de toda a oncofertilidade, e ainda assim é frequentemente omitida — sobretudo em adolescentes e adultos jovens.

Recuperação cirúrgica de espermatozoides, quando a coleta por ejaculação não é possível.

Congelamento de tecido testicular, em pacientes pré-púberes, em contexto de pesquisa e em serviços específicos.

Quanto tempo é preciso

Para sêmen: horas. Não há justificativa razoável para não oferecer.

Para óvulos ou embriões: cerca de duas semanas para um ciclo completo. Protocolos de início imediato, que começam a estimulação em qualquer fase do ciclo menstrual em vez de aguardar a menstruação, encurtam esse prazo de forma relevante — e são justamente o padrão nesse contexto.

Quando não há tempo nem para isso: as alternativas que dispensam estimulação entram em consideração, realizadas por serviços com experiência.

A decisão sobre haver ou não tempo cabe à equipe oncológica. O que cabe à paciente é garantir que a pergunta seja feita.

O caso do câncer de mama

Merece menção por ser a situação que mais gera dúvida.

A preocupação é a elevação do estradiol durante a estimulação em um tumor potencialmente hormônio-sensível.

Existem protocolos desenhados para esse contexto, que associam medicações para atenuar essa elevação durante o ciclo. A preservação não é contraindicada por princípio, e a decisão é conjunta entre as equipes oncológica e de reprodução.

Se lhe disseram que não é possível preservar por causa do tipo de tumor, vale confirmar com um serviço de reprodução — a informação pode estar desatualizada.

Depois do tratamento

A função gonadal pode se recuperar, parcial ou totalmente, ao longo de meses a anos, ou pode não se recuperar. Isso é imprevisível no momento do tratamento, e é justamente por isso que se preserva.

O intervalo até tentar engravidar, ou usar o material preservado, é definido pela equipe oncológica conforme o tipo de tumor e o risco de recidiva.

A avaliação da função ovariana depois do tratamento, com reserva ovariana e ciclo menstrual, informa o que sobrou — e a informação de que houve recuperação não significa que ela seja duradoura, o que reforça a conversa sobre não adiar demais.

O que perguntar, e a quem

À equipe oncológica: qual o risco do meu protocolo para a fertilidade, e há tempo para preservar antes de começar?

Ao serviço de reprodução: quais opções se aplicam ao meu caso, quanto tempo cada uma leva, e o que se espera preservar?

Se a primeira pergunta não for respondida, insista. Ela é sua, e a resposta muda o resto da sua vida reprodutiva.

O panorama completo das indicações de preservação está em preservação da fertilidade, e a discussão sobre cobertura em plano de saúde e reprodução assistida.

Perguntas frequentes

Vai atrasar meu tratamento do câncer?

Um ciclo de coleta leva cerca de duas semanas, e existem protocolos de início imediato que reduzem esse prazo. A decisão sobre haver ou não tempo é da equipe oncológica, e a conversa precisa acontecer no momento do diagnóstico, e não depois.

Sempre há tempo?

Nem sempre. Quando o tratamento é urgente, existem alternativas mais rápidas — congelamento de sêmen no homem é questão de horas, e no caso feminino há opções que dispensam a estimulação, realizadas em serviços com experiência específica. Vale sempre perguntar antes de assumir que não dá.

Toda quimioterapia causa infertilidade?

Não. O risco varia conforme o agente, a dose acumulada, a associação com radioterapia e a idade da paciente. Alguns esquemas têm risco alto, outros baixo. A equipe oncológica pode estimar esse risco, e essa informação orienta a decisão.

A estimulação hormonal é segura em câncer de mama?

Existem protocolos desenhados para esse contexto, que associam medicações para reduzir a elevação do estradiol durante o estímulo. A decisão é conjunta entre a equipe oncológica e a de reprodução, e a preservação não é contraindicada por princípio.

O plano de saúde cobre?

A regra geral é de não cobertura obrigatória para reprodução assistida. Nesse contexto específico existe jurisprudência que distingue a criopreservação por indicação médica do planejamento familiar, com decisões favoráveis. O tema está detalhado em texto próprio.

Fontes

  • ASRM Practice Committee — Fertility preservation in patients undergoing gonadotoxic therapy

  • ESHRE — Guideline on female fertility preservation

Tratamentos oncológicos podem comprometer a função dos ovários e dos testículos de forma temporária ou definitiva, conforme o agente, a dose e a idade. A preservação é feita antes de iniciar o tratamento: congelamento de óvulos ou embriões na mulher, de sêmen no homem. Um ciclo de coleta costuma levar cerca de duas semanas, e existem estratégias para reduzir esse prazo.

A janela que não volta

Este texto tem uma mensagem central: a conversa sobre preservação precisa acontecer no momento do diagnóstico, antes de iniciar o tratamento.

Depois de começar a quimioterapia ou a radioterapia, a oportunidade pode ter passado. Não existe forma de recuperar depois o que estava disponível antes.

Isso soa óbvio e falha na prática com frequência. No turbilhão de um diagnóstico oncológico, com decisões urgentes e sobrecarga emocional, a fertilidade raramente é o primeiro assunto — e nem sempre é levantada pela equipe.

Se você ou alguém próximo recebeu um diagnóstico e pretende ter filhos no futuro, essa pergunta precisa ser feita explicitamente à equipe oncológica: existe risco para a fertilidade, e há tempo para preservar?

O que compromete a fertilidade

Quimioterapia. O risco varia muito conforme o agente, a dose acumulada e a idade da paciente. Alguns esquemas têm risco elevado de insuficiência ovariana; outros, risco baixo.

Radioterapia. Quando o campo inclui a pelve, o efeito sobre os ovários é direto. Irradiação de corpo inteiro tem risco alto. Radioterapia em outras regiões pode ter efeito indireto conforme a proximidade.

Cirurgia, quando envolve a remoção de ovários, testículos ou estruturas reprodutivas.

Idade. Uma mulher mais jovem, com reserva maior, tolera melhor a agressão gonadal do que uma mulher próxima dos 40. O mesmo tratamento tem consequências diferentes conforme o ponto de partida.

A equipe oncológica pode estimar o risco do protocolo específico, e essa informação é o que orienta a decisão sobre preservar.

As opções na mulher

Congelamento de óvulos. É a opção mais usada. Exige um ciclo de estimulação com cerca de dez dias de medicação e uma coleta sob sedação, descrito em congelamento de óvulos. Mantém a decisão individual.

Congelamento de embriões. Para quem tem parceiro e decide fertilizar antes de congelar. Envolve decisão conjunta e as implicações discutidas em destino dos embriões.

Congelamento de tecido ovariano. Alternativa quando não há tempo para uma estimulação ou em pacientes pré-púberes. É realizada em serviços com experiência específica.

Proteção ovariana durante o tratamento, com medicações que suprimem temporariamente a função ovariana. É estratégia complementar, com evidência menos robusta do que a criopreservação, e não a substitui.

Transposição ovariana, quando o campo de radioterapia inclui a pelve: os ovários são deslocados cirurgicamente para fora da área irradiada.

As opções no homem

Congelamento de sêmen. Simples, rápido e altamente eficaz. A coleta leva minutos, e costuma-se colher mais de uma amostra quando há tempo.

É a intervenção com melhor relação entre facilidade e benefício de toda a oncofertilidade, e ainda assim é frequentemente omitida — sobretudo em adolescentes e adultos jovens.

Recuperação cirúrgica de espermatozoides, quando a coleta por ejaculação não é possível.

Congelamento de tecido testicular, em pacientes pré-púberes, em contexto de pesquisa e em serviços específicos.

Quanto tempo é preciso

Para sêmen: horas. Não há justificativa razoável para não oferecer.

Para óvulos ou embriões: cerca de duas semanas para um ciclo completo. Protocolos de início imediato, que começam a estimulação em qualquer fase do ciclo menstrual em vez de aguardar a menstruação, encurtam esse prazo de forma relevante — e são justamente o padrão nesse contexto.

Quando não há tempo nem para isso: as alternativas que dispensam estimulação entram em consideração, realizadas por serviços com experiência.

A decisão sobre haver ou não tempo cabe à equipe oncológica. O que cabe à paciente é garantir que a pergunta seja feita.

O caso do câncer de mama

Merece menção por ser a situação que mais gera dúvida.

A preocupação é a elevação do estradiol durante a estimulação em um tumor potencialmente hormônio-sensível.

Existem protocolos desenhados para esse contexto, que associam medicações para atenuar essa elevação durante o ciclo. A preservação não é contraindicada por princípio, e a decisão é conjunta entre as equipes oncológica e de reprodução.

Se lhe disseram que não é possível preservar por causa do tipo de tumor, vale confirmar com um serviço de reprodução — a informação pode estar desatualizada.

Depois do tratamento

A função gonadal pode se recuperar, parcial ou totalmente, ao longo de meses a anos, ou pode não se recuperar. Isso é imprevisível no momento do tratamento, e é justamente por isso que se preserva.

O intervalo até tentar engravidar, ou usar o material preservado, é definido pela equipe oncológica conforme o tipo de tumor e o risco de recidiva.

A avaliação da função ovariana depois do tratamento, com reserva ovariana e ciclo menstrual, informa o que sobrou — e a informação de que houve recuperação não significa que ela seja duradoura, o que reforça a conversa sobre não adiar demais.

O que perguntar, e a quem

À equipe oncológica: qual o risco do meu protocolo para a fertilidade, e há tempo para preservar antes de começar?

Ao serviço de reprodução: quais opções se aplicam ao meu caso, quanto tempo cada uma leva, e o que se espera preservar?

Se a primeira pergunta não for respondida, insista. Ela é sua, e a resposta muda o resto da sua vida reprodutiva.

O panorama completo das indicações de preservação está em preservação da fertilidade, e a discussão sobre cobertura em plano de saúde e reprodução assistida.

Perguntas frequentes

Vai atrasar meu tratamento do câncer?

Um ciclo de coleta leva cerca de duas semanas, e existem protocolos de início imediato que reduzem esse prazo. A decisão sobre haver ou não tempo é da equipe oncológica, e a conversa precisa acontecer no momento do diagnóstico, e não depois.

Sempre há tempo?

Nem sempre. Quando o tratamento é urgente, existem alternativas mais rápidas — congelamento de sêmen no homem é questão de horas, e no caso feminino há opções que dispensam a estimulação, realizadas em serviços com experiência específica. Vale sempre perguntar antes de assumir que não dá.

Toda quimioterapia causa infertilidade?

Não. O risco varia conforme o agente, a dose acumulada, a associação com radioterapia e a idade da paciente. Alguns esquemas têm risco alto, outros baixo. A equipe oncológica pode estimar esse risco, e essa informação orienta a decisão.

A estimulação hormonal é segura em câncer de mama?

Existem protocolos desenhados para esse contexto, que associam medicações para reduzir a elevação do estradiol durante o estímulo. A decisão é conjunta entre a equipe oncológica e a de reprodução, e a preservação não é contraindicada por princípio.

O plano de saúde cobre?

A regra geral é de não cobertura obrigatória para reprodução assistida. Nesse contexto específico existe jurisprudência que distingue a criopreservação por indicação médica do planejamento familiar, com decisões favoráveis. O tema está detalhado em texto próprio.

Fontes

  • ASRM Practice Committee — Fertility preservation in patients undergoing gonadotoxic therapy

  • ESHRE — Guideline on female fertility preservation

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Neo Vita © 2026 - Todos os Direitos Reservados.

NVS Clínica de Medicina Avançada LTDA. CNPJ 27.595.526/0001-18

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